domingo, 4 de janeiro de 2009

O Terrorismo de Israel continua. O silêncio de Obama também

Criança palestina chora na Faixa de Gaza

Diferente do poema abaixo de Mário Quintanta, o ano novo começou com graves pecados: os recentes ataques cruéis de Israel contra o povo palestino na faixa de Gaza já mataram ao menos 480 pessoas e feriram outras 2.350, a maioria civis, crianças, mulheres. Não é segredo pra ninguém que Israel sempre contou com o apoio do Império, agora decadente, dos EUA. Enquanto a tragédia prossegue e protestos contra Israel acontecem no mundo todo, o novo presidente eleito, Barack Obama, prossegue calado, omisso... A sua omissão é, no mínimo, cúmplice de mais esse genocídio, cujas armas assassinas sempre tiveram o patrocínio do país mais terrorista do planeta terra: os Estados Unidos, afirmação de Noam Chomsky, conceituado professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). É bom esclarecer que Chomsky não é palestino nem iraquiano ou afegão: é estadunidense mesmo.
Acabo me lembrando novamente de Mario Quintana. Desta vez o poema é Esperança:
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Ano Novo

"O Ano Novo ainda não tem pecado:
É tão criança...Vamos embalá-lo...
Vamos todos cantar juntos em seu berço de mãos dadas,
A canção da eterna esperança."

Mário Quintana

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Convite à viagem

site: Olhares

Charles Baudelaire

Minha doce irmã,
Pensa na manhã
Em que iremos, numa viagem,
Amar a valer,
Amar e morrer
No país que é a tua imagem!
Os sóis orvalhados
Desses céus nublados
Para mim guardam o encanto
Misterioso e cruel
Desse olhar infiel
Brilhando através do pranto.
Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.
Os móveis polidos,
Pelos tempos idos,
Decorariam o ambiente;
As mais raras flores
Misturando odores
A um âmbar fluido e envolvente,
Tetos inauditos,
Cristais infinitos,
Toda uma pompa oriental,
Tudo aí à alma
Falaria em calma
Seu doce idioma natal.
Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.
Vê sobre os canais
Dormir junto aos cais
Barcos de humor vagabundo;
É para atender
Teu menor prazer
Que eles vêm do fim do mundo.
— Os sangüíneos poentes
Banham as vertentes,
Os canis, toda a cidade,
E em seu ouro os tece;
O mundo adormece
Na tépida luz que o invade.
Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

domingo, 30 de novembro de 2008

Fernando Pessoa

Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém.

Fernando Pessoa

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O Tempo

Por Maristela Brunetto


Sempre tive problemas com o tempo
Nunca o vi como um amigo
Não sei se eu não o entendia
Ou se simplesmente nunca parei para observá-lo.
Não posso dizer que ele é um inimigo
Até porque acho que é generoso comigo
Acho mesmo que nunca olhei para ele
Simplesmente o ignorei,
Como se não existisse
Mas a vida nunca deixa uma negligência impune
Ela me apresentou o tempo
Ela o trouxe até mimE
le chegou e disse: Não dá mais para adiar
Vamos ter uma conversa
E, então, ele se revelou para mim
Só aí eu entendi que o tempo nunca pode ser adversário
Deve ser, sim, aliado
Hoje convivemos em harmonia
Às vezes ele se manifesta sozinho
E é quando acho que as coisas são mais sábias
Mas ainda tenho o desagradável hábito
De querer manipulá-lo
Como se eu tivesse este poder
Acho que logo não teremos mais conflitos
Teremos sintonia
Eu e o tempo

* Maristela Brunetto é jornalista sul-mato-grossense e linda

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Afresco


Seus beijos indóceis,
de efeitos furta-cores,
tatuaram o meu corpo
com traços invisíveis
marcaram a minha pele
com mordidas indolores.

As nuances desse amor
Cortaram a minha carne
geraram espasmos fundos
abriram minha genitália em flor
epiderme em risos, volúpia que arde,
gozo em cor, assombros profundos

O sumo da sua esfinge
Compôs no meu dorso quente
um afresco vivo com textura espessa,
afeto e maledicência, zunidos e vertigem
Nem furtiva nem perene
A sua arte me fez serpente.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

OBAMA, NOVIDADE SIMBÓLICA

* Por Chico Alencar

É inegável: a eleição de Barack Hussein Obama como 44o presidente da República dos Estados Unidos da América do Norte representa uma novidade simbólica para o mundo. Ainda em nossa geração o racismo e a segregação marcavam aquele país, e vitimaram líderes negros grandiosos como Malcolm X e Martin Luther King.A polarização tradicional da política dos EUA, entretanto, esconde uma realidade mais diversa: além de Obama e McCain, também disputaram a presidência da ainda mais forte potência capitalista do planeta candidatos independentes (como o conhecido Ralph Nader) e candidatos do Partido Socialismo e Libertação, do Partido da Constituição, do Partido Libertário, do Partido Verde, do Partido das Proibições, do Partido dos Trabalhadores Socialistas, do Partido Socialista, do Partido Americano e do Boston Tea.Mais imediatamente, a era Bush chega ao fim, o que sempre deve ser saudado. Essa deve ser a alteração mais percebida, inclusive com o fim do conceito e da prática espúrios de "guerra preventiva" e de unilateralidade.Não alimentemos ilusões, porém. Obama é uma alternativa para o capitalismo norte-americano em crise hegemônica. Seu programa de modernização da infra-estrutura energética, de comunicação, da pesquisa científica e da educação, com ampliação das políticas sociais, encontra apoio em representantes do poder econômico americano, como Warnen Buffet. O candidato do Partido Democrata contou também com a adesão de republicanos como Colin Powell.Obama renovou já na campanha, sem dúvida. Aglutinou apoio dos progressistas pela imagem de um jovem negro, idealista e determinado, e tranqüilizava os moderados com seu discurso sereno e disciplinado. Desse modo, envolveu amplos setores formadores de opinião pública: estudantes, jovens intelectuais liberais e ativistas de diversas minorias, até então apáticas pela desilusão política. Conseguiu, pouco a pouco, um raro engajamento popular, por meio de mecanismos como a internet. E recebeu os aportes do grande capital, viabilizadores do acesso à propaganda e à mídia de massas.O setor mais conservador da sociedade norte-americana, que McCain representou, como porta-voz da moralidade individualista, desta vez não ganhou. Os desastres do governo Bush no Iraque e no Afeganistão e o agravamento da crise econômica desde o estouro da "bolha imobiliária" favoreceram Obama. A vice do Republicano, Sarah Palin, no seu arrebatamento ultraconservador, disparava contra Obama, ecoando a linha da campanha, classificando-o como "celebridade", "elitista", "terrorista" e "comunista". Isso por ter ele defendido aumentar em 4,5% a alíquota das rendas acima de U$ 250 mil, auferidas por apenas 2% da população, voltando aos níveis do governo ("socialista", sra. Sarah?) de Bill Clinton. A postura fundamentalista e reacionária acabou por angariar antipatia da maioria da população contra sua própria chapa.Para além do simbolismo da eleição de um descendente afro-americano para a Presidência dos EUA é imperioso refletir sobre os destinos da sociedade, do planeta e da humanidade: é grave a situação da Terra produzida pelo irrefreável aquecimento global. Como lembra Leonardo Boff,: "não basta dizer que o aquecimento é produzido pelo ser humano. Que ser humano? Pelos índios, pelos esquimós? Precisamos dizer com todas as letras: o aquecimento foi produzido por aquela porção de homens que introduziram a produção industrial já há três séculos, aceleraram o consumo energético, inventaram a tecno-ciência que agride ecossistemas (ecologia ambiental), indutora de uma perversa desigualdade social (ecologia social) e devastadora do planeta como um todo (ecologia integral) e projetaram a cultura do consumo ilimitado (ecologia mental). Hoje são corporações industriais globalizadas, gigantes da bioquímica, do agro-negócio e instituições afins. São eles que mais poluem (só os USA, 25%) e que mais resistem às mudanças paradigmáticas. Se eles não se alfabetizarem ecologicamente e não mudarem o rumo do mundo poderão levar a biosfera para um impasse desastroso""Change" foi a senha vitoriosa de Obama. Mudança para valer, em nível global, significa reconhecer que como está não dá mais para continuar. Estamos condenados a inventar um outro modo de conviver, produzir e distribuir os bens necessários, de consumir responsável e solidariamente e tratar, reaproveitando, os dejetos, os resíduos. Precisamos, como enfatiza a Carta da Terra, de "um modo sustentável de viver". O atual já revelou-se não mais sustentável para 2/3 da humanidade. Todas as alternativas energéticas e supostamente ecológicas não vão ao cerne da questão. Em três ou quatro anos vão mostrar sua ineficácia. Dir-se-á: "vocês foram alertados e sabiam, mas preferiram a cegueira voluntária e a nossa perdição para garantir a rota insensata que lhes dava vantagens". É preciso transformar o sistema produtivo e as relações de produção e convivência. Eco-socialismo ou barbárie!Mudar e revolucionar é urgente. Nós, conscientes e organizados, podemos.

*Chico Alencar é educador, escritor e deputado federal do PSol