quinta-feira, 29 de maio de 2008

Foto: Blog Canto da boca

Aviso da Lua Que Menstrua
Elisa Lucinda

Moço, cuidado com ela!

Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
Cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço!
Às vezes parece erva, parece hera
Cuidado com essa gente que gera
Essa gente que se metamorfoseia
Metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
E ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
Mas é outro lugar, aí é que está:
Cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
Que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
Transforma fato em elemento
A tudo refoga, ferve, frita
Ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
É que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
É que tô falando na "vera"
Conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
Delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
Ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
Já se alcança a "cidade secreta"
A atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
Cai na condição de ser displicente
Diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
Que a mulher extrai filosofando
Cozinhando, costurando e você chega com mão no bolso
Julgando a arte do almoço: eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
Tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
Então esquece de morder devagar
Esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
Chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
Vaca é sua mãe, de leite.Vaca e galinha...
Ora, não ofende. enaltece, elogia:
Comparando rainha com rainha
Óvulo, ovo e leite
Pensando que está agredindo
Que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!

terça-feira, 27 de maio de 2008

Clarice Lispector no palco


Clarice Lispector faz malabarismo de sentimentos com as palavras. É anticonvencional. Quebra as máscaras. Ao mesmo tempo em que se desnuda na criação literária, se resguarda num mistério. "Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por que dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma." Ao ler os seus textos sinto que viajo pelos labirintos do meu interior. “Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? Assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço”. Fico imaginando as palavras de Clarice no palco, interpretadas com os sentimentos plurais dessa mulher que, a exemplo de outras extraordinárias, também sofria da “doença da alma”, conseguia ser múltipla, amando e odiando, experimentando a liberdade e a prisão, ousando com palavras secas e úmidas.: “Onde aprender a odiar para não morrer de amor?" Vou ter o privilégio de experimentar, como espectadora, o doce e o amargo de Clarice no palco. Um espetáculo que, sob a direção de Nill Amaral, está revolucionando a história do teatro sul-mato-grossense. Nill também é assim: extraordinário, instigante, ousado, criativo.

No gosto doce e amargo das coisas de que somos feito
6, 7 e 8 de junho no Depósito Cênico do Sesc Horto
Imperdível!
"Estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não saber como viver, vivi outra? A isso queria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização interior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi - na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro."
Clarice Lispector

domingo, 25 de maio de 2008

Para compreender a "falta de alimentos" no mundo

Tela Portinari - Retirantes

Por sugestão da Miti, leitora assídua, mediadora, crítica participativa do Maria-Sem-Vergonha e preocupadíssima com as questões do nosso tempo, publico abaixo um artigo que analisa o discurso propagado nos últimos dias sobre alimentos. Vale a pena lê-lo mesmo.

Dom Demétrio Valentini *

Um calafrio percorre o mundo. Está faltando alimentos. E os que existem estão se tornando muito caros. Só num ano o trigo subiu 130%. E na Ásia o arroz duplicou de preço em três meses.
Segundo cálculos da FAO, esta subida de preços aumentou o número dos famintos em cem milhões, que se acrescentam aos 845 milhões já existentes antes da crise atual.
O que está acontecendo?
A pergunta é pertinente. Analisando melhor alguns dados, salta aos olhos que na origem desta crise existem distorções que precisam ser identificadas, denunciadas e corrigidas.
Em 2007 a produção mundial de grãos foi de 2 bilhões e 300 milhões de toneladas. Um aumento de quatro por cento sobre o ano anterior. Portanto, a crise não vem da diminuição da safra.
De 1961 a 2007 a produção de grãos no mundo triplicou, enquanto a população somente duplicou. São dados que precisam estar presentes numa análise atenta para compreender o que se passa.
O Brasil se orgulha de ser um país exportador de grãos. Calcula-se que a safra de grãos neste ano chegará a 139 milhões de toneladas. Parece muito. Mas é pouco. Os Estados Unidos, só de trigo produzem 150 milhões de toneladas. No Brasil existem terras ociosas, em toda parte. Por que não são
cultivadas?
A crise atual denuncia o desvirtuamento da agricultura, em todo o seu processo produtivo. É preciso voltar ao bom senso, e recuperar a finalidade primordial da agricultura, que é a de produzir alimentos para saciar a fome da humanidade. E não fazer dela um mercado lucrativo para os que especulam com a fome das pessoas.
Introduziu-se na agricultura a especulação financeira. De acordo com Paul Waldie, no ano dois mil havia perto de cinco bilhões de dólares apostando na variação dos preços agrícolas. Dinheiro que não se destinava a comprar nenhuma tonelada física, mas só especulava em cima da variação de preços. Em 2007 este número saltou para 175 bilhões de dólares, aplicados na
especulação que produz lucros às custas das manobras para aumento dos preços agrícolas.
Esta a primeira perversão da agricultura. A agricultura se tornou um negócio especulativo. No Brasil esta especulação se materializa na concentração em quatro ou cinco grandes companhias transnacionais que dominam o mercado exportador de grãos. A agricultura virou negócio especulativo.
Outra perversão está no sistema produtivo. Quem mais produz alimentos, está provado, é a agricultura familiar. A produção de alimentos supõe um relacionamento efetivo e afetivo do agricultor com a terra. Este relacionamento torna viável a permanência do agricultor em sua propriedade, para nela cuidar da plantação com a dedicação e competência que ela requer. Mas o governo prefere se encantar com as grandes empresas, que fazer da agricultura o "agro negócio", cujos parâmetros de eficiência são o lucro, não o atendimento das necessidades de alimentos da população.
Mas, em cima da agricultura caem outras especulações, sobretudo através do preço dos insumos. A desculpa para o seu constante aumento era o preço do dólar, dado que muitos dos seus ingredientes precisam ser importados. Agora o dólar baixou. Mas os insumos continuam subindo. De tal modo que o agricultor continua apertado. Diante desta situação, o governo permanece na inércia, reverenciando submisso as "leis do mercado", que não podem ser alteradas pelo Estado.
A crise é sinal de alerta para, se repensar por inteiro a agricultura. De vez em quando a própria realidade se encarrega de sacudir as consciências e convocar para o bom senso. Na Campanha da Fraternidade deste ano constatamos a urgência de escolher a vida. Agora, a crise de alimentos nos ensina que é a realidade que nos escolhe, nos adverte, se em tempo queremos entender os apelos que ela nos faz.


* Bispo de Jales, São Paulo.
Victor Heredia - Sobreviviendo


sábado, 24 de maio de 2008

Like a Rolling Stone
Bob Dylan



Como Uma Pedra Que Rola*

Era uma vez, você se vestia tão bem
Jogava esmola aos mendigos em seu auge
Não foi?As pessoas chamavam, dizendo
“Cuidado boneca Você está pedindo pra cair”
Você achou que todos eles estavam brincando com você
Você costumava rir
de todo mundo que ficava vadiando ao redor
Agora você não fala tão alto
Agora você não parece tão orgulhosa
De estar tendo que vasculhar pela sua próxima refeição
Como se sente?Como se sente?
Por estar sem um lar?
Como uma completa estranha?
Como uma pedra que rola*?
Você freqüentou a melhor escola
Muito bem, Senhorita Solitária
Mas você sabe que você apenas ficava enchendo a cara lá
E ninguém jamais lhe ensinou
Como viver nas ruas
E agora você descobre (que)
Você vai ter que se acostumar com isso
Você dizia que jamais condescenderia
Com o vagabundo misterioso, mas agora você percebe
Que ele não está vendendo álibis
Enquanto você olha fixamente para o vácuo de seus olhos
E o pergunta, você quer fazer um trato?
Como se sente?Como se sente?
Por estar por sua conta?
Sem nenhuma direção para casa
Como uma completa estranha?
Como uma pedra que rola*?
Você nunca se virou para ver as carrancas
Dos equilibristas e dos palhaços
Enquanto todos eles chegavam
E faziam truques para você
Você jamais entendeu que isso não é bom
Você não deveria deixar as outras pessoas
Se divertir no seu lugar
Você antigamente cavalgava o cavalo cromado
Com seu diplomata
Que carregava em seu ombro um gato siamês
Não é difícil quando você descobre que
Ele realmente não era tudo que aparentava ser
Depois que ele levou de você tudo que podia roubar?
Como se sente?Como se sente?
Por estar por sua conta?
Sem nenhuma direção para casa
Como uma completa estranha?
Como uma pedra que rola*?
Princesa no campanário e todas as pessoas bonitas
Estão todas bebendo e pensando que estão por cima
Trocando presentes caros e coisas
Mas é melhor você surrupiar o seu anel de brilhante
É melhor você penhora-lo, gata
Você antigamente era tão entretida
Com o Napoleão de trapos e a linguagem que ele usava
Vá para ele agora, ele te chama, você não pode recusar
Quando você não tem nada, você não tem nada a perder
Você está invisível agora
Você não tem mais segredos a ocultar
Como se sente?Como se sente?
Por estar por sua conta
Sem nenhuma direção para casa
Como uma completa estranha?
Como uma pedra que rola*?

*como uma pedra que rola = perdido(a) na vida

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Maio de 68 - 40 anos depois

Estudantes em Paris, Maio de 68


Em maio de 68 eu tinha apenas sete meses de vida. Entretanto, a geração desse período, que protagonizou barricadas, protestos e revolucionou comportamentos, marcou profundamente a minha juventude e a minha vida. A força das suas idéias foi além de um mês, uma data, de uma camiseta, de uma música, dos filmes do Godard e Truffaut, do som dos The Rolling Stones, Jimi Hendrix e tantos outros. Seus ideais marcaram décadas. A crítica à alienação e à cultura do espetáculo, a reivindicação da ousadia na política, o grito por democracia e liberdade, o anúncio da necessidade de se resistir ao autoritarismo, ao arbítrio, ao consumismo, construíram uma identidade que tornou-se referência para jovens de diferentes regiões do planeta. Paris não foi o único centro da rebeldia. Nos Estados Unidos, a guerra do Vietnã, então no auge, viria a levar a juventude às ruas e a fortalecer o movimento pacifista. Na Califórnia, na cidade de San Francisco, contemporaneamente a Maio 68, florescia o movimento hippie, sucedendo a beat generation. No Brasil, o movimento estudantil resistia nas universidades e nas ruas contra a ditadura militar. Fidel e Che Guevara, este último assassinado em outubro de 67, eram ícones que inspiravam a juventude. Na África, aconteciam movimentos anti-colonialista. Na Alemanha e em diversos pontos da Europa também eclodiram manifestações estudantis. Emergiam ideiais libertários.
Entre as palavras de ordem da juventude de 68, estavam “não confie em ninguém com mais de trinta”, “é proibido, proibir” ou “sejam realistas, peçam o impossível”. A ousadia dava forças, inclusive, para enfrentar o aparato repressivo. Vivia-se intensamente o tempo presente por causa de um futuro que iria chegar. Essa geração carregava sonhos e portava bandeiras. Esses sonhos eram inegociáveis. Resistia-se à mediocridade e, por um ideal e pela coletividade, poderia se dar uma vida ou muitas vidas.
Hoje, quarenta anos depois, o que sobrou dessa época que marcou o século XX? Pode-se afirmar que no inventário ficaram apenas as fotos, os filmes e algumas avaliações? Não, conforme analisa Katarina Peixoto, de forma brilhante num artigo na Agência Carta Maior, não tem como se fazer inventário porque Maio de 68 não está morto. “É por isso que toda tentativa de inventariar Maio de 68 não pode passar, também nas palavras de Debord, de gracejos ditos em jornal. Não há balanço do que não se pode inventariar, porque não há óbito do seu sentido nem do seu fundamento.” E ela mostra que as guerras continuam. É só olhar para o Iraque. A Palestina continua ocupada. A África sofre com os conflitos. Na América Latina ressurgem centelhas libertárias e a esquerda começa a retomar o poder. Cuba resiste. O Império reage. “Os lacaios do latifúndio continuam roubando, tendo privilégios e matando impunemente”, afirma. Um exemplo, acrescento, é o assassinato da irmã Dorothy Stang e a impunidade vergonhosa do assassino.
Mesmo com essas semelhanças nos acontecimentos históricos, são latentes as transformações nos últimos 40. A intensificação da globalização capitalista a partir da década de 90 e da cultura neoliberal tentaram matar o sonho e a história. Mesmo com a rebeldia de Seattle e de Porto Alegre, mesmo com as centelhas vermelhas na América Latina, a mídia, a serviço da nova ordem mundial, contribuiu com o aprofundamento da alienação, do individualismo, da mesquinhez e a morte das utopias.
No Brasil, uma parte da juventude de 68 chegou ao poder. E, todos nós que sonhamos com isso, mesmo fazendo uma crítica diferente dos oposicionistas oportunistas, amargamos muitas frustrações.
Entretanto, se é verdade que impera a mediocridade entre a juventude universitária, na garotada dos shopping centers, nos novos ricos da esquerda que mudaram de lado e transformaram bandeiras em gravatas coloridas, hinos revolucionários em hinos de time de futebol com as torcidas fanáticas ou hinos petencostais nos cultos também fanáticos, é verdade também que os ideais de Maio de 68 estão aí nos movimentos dos sem-terra, na organização dos guarani, dos ecossocialistas, dos negros e de mulheres que resistem à alienação. Como diz Karina, “eu existo também por causa de Maio de 68”. Eu também.
Zuenir Ventura, autor do livro 1968: o ano que não terminou, nos mostra que é preciso olhar para 68 sem as lentes da nostalgia e sem as lentes da negação. Ao fazer um balanço dos 40 anos, ele diz "há uma corrente pós-moderna do ceticismo, do cinismo, segundo a qual a utopia, a esperança e a solidariedade seriam sentimentos decadentes. Acho que não. São valores permanentes."

Jimi Hendrix - Like A Rolling Stone





BBHC / Janis Joplin - Piece of my Heart (1968)

quarta-feira, 21 de maio de 2008

A morte do amor e o olhar de Lou Salomé e Rilke

Tango - exposição na Pinacoteca

Sei que poderia deter o meu olhar sobre inúmeros fatos que estão acontecendo no país e no mundo. Fatos que têm um forte impacto social, como por exemplo a nomeação do Carlos Minc para o Meio Ambiente, que, obviamente, já está atraindo a fúria dos homens do agronegócio. Os senhores da moto-serra e do agrotóxico estão afirmando que o governo trocou seis por meia dúzia por causa das propostas do novo ministro, como a que proíbe empréstimos dos bancos oficiais a quem faz desmatamentos ilegais (Viva, MInc!).Também poderia abordar a caça às bruxas deflagrada contra as milhares de mulheres que fizeram abortos clandestinos numa clínica de Mato Grosso do Sul e, hoje, estão sob a mira do Ministério Público, podendo vir a ser processadas, o que considero um absurdo. Também deveria escrever sobre a falta de alimentos e, junto com a Miti, ir mais fundo nessa questão, já que algo de errado acontece nesta história. Os números não batem. E tem ainda a CPI dos Cartões Corporativos que ontem atraiu, inicialmente, a minha atenção, mas logo desisti de ver o circo pegar fogo.
Estou meio sem forças. Tenho fugido das leituras clássicas, das notícias cotidianas. Antes mesmo da morte da Aline, pressentia algo ruim. Nessas horas, fujo para o mundo da literatura. Me peguei a ler novamente Lou Salomé, essa mulher extraordinária, à frente do seu tempo, que chocou a Europa com o seu pensamento e com o seu comportamento. São essas mulheres extraordinárias que ajudam a transformar a história. Gosto da forma como ela fala e compreende o amor:
"Pois, nos seio mesmo da paixão, nunca se deve tratar de 'conhecer perfeitamente o outro': por mais que progridam neste conhecimento, a paixão restabelece constantemente entre os dois este contato fecundo que não pode se comparar a nenhuma relação de simpatia e os coloca de novo em sua relação original: a violência do espanto que cada um deles produz sobre o outro e que põe limites a toda tentativa de apreender objetivamente este parceiro. É terrível de dizer, mas , no fundo, o amante não está querendo saber "quem é" em realidade seu parceiro. Estouvado em seu egoísmo, ele se contenta de saber que o outro lhe faz um bem incompreensível... os amantes permanecem um para o outro, em última análise, um mistério."
Me instiga a pensar nesse chamado mistério porque ele faz os meus olhos brilharem. O mistério leva a surpresas e surpresas mantêm as delícias da infância. É a descoberta, o novo, a brincadeira, o lúdico. As surpresas nos deixam com o queixo caído diante do simples que se torna extraordinário: um e-mail, uma música, uma flor, um torpedo, um alô, uma poesia ou apenas um olhar. Essas são as surpresas dos gestos, mas as mais deliciosas são as da alma. Aquilo que está no outro e ainda não foi revelado.
O desafio é impedir a fusão dos seres na relação de amor. É estar com o outro sendo você mesmo, mantendo o seu espírito livre, sem anulação, sem nenhuma culpa. Vejo que no cotidiano apunhalamos o amor, tentando decifrá-lo até a última gota para tê-lo como presa do nosso egoísmo. Outras vezes, cometemos o homicídio do amor, na rotina insana que nos torma meio máquinas, seres híbridos, um misto de gente, pixels e teclados. Fazemos o ritual de morte do amor quando deixamos de perceber o outro, que começa a se passar como invisível diante dos nossos olhos.
O poeta Rilke, que foi um dos amores de Lou Salomé,enfatiza que “para quem ama, o amor , por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento, cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. (...) O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo por si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser: é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe."
Assim, o amor é uma busca. E essa busca deve estar em tudo: na vida a dois, no conhecimento, na profissão, na amizade, na vida toda. Busca...Busca...
Drão - Gilberto Gil

terça-feira, 20 de maio de 2008

Carta à Marina Silva



por frei Betto

Publicado no Jornal Folha de São Paulo - 16/05/2008

Querida Marina



Caíste de pé! Tu eras um estorvo àqueles que comemoram, jubilosos, a tua demissão, os agressores do meio ambiente
CAÍSTE DE pé! Trazes no sangue a efervescente biodiversidade da floresta amazônica. Teu coração desenha-se no formato do Acre e em teus ouvidos ressoa o grito de alerta de Chico Mendes. Corre em tuas veias o curso caudaloso dos rios ora ameaçados por aqueles que ignoram o teu valor e o significado de sustentabilidade.Na Esplanada dos Ministérios, como ministra do Meio Ambiente, tu eras a Amazônia cabocla, indígena, mulher. Muitas vezes, ao ouvir tua voz clamar no deserto, me perguntei até quando agüentarias.Não te merece um governo que se cerca de latifundiários e cúmplices do massacre de ianomâmis. Não te merecem aqueles que miram impassíveis os densos rolos de fumaça volatilizando a nossa floresta para abrir espaço ao gado, à soja, à cana, ao corte irresponsável de madeiras nobres. Por que foste excluída do Plano Amazônia Sustentável? A quem beneficiará esse plano, aos ribeirinhos, aos povos indígenas, aos caiçaras, aos seringueiros ou às mineradoras, às hidrelétricas, às madeireiras e às empresas do agronegócio?Quantas derrotas amargaste no governo? Lutaste ingloriamente para impedir a importação de pneus usados e a transformação do país em lixeira das nações metropolitanas; para evitar a aprovação dos transgênicos; para que se cumprisse a promessa histórica de reforma agrária.Não te muniram de recursos necessários à execução do Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia Legal, aprovado pelo governo em 2004.Entre 1990 e 2006, a área de cultivo de soja na Amazônia se expandiu ao ritmo médio de 18% ao ano. O rebanho se multiplicou 11% ao ano. Os satélites do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) detectaram, entre agosto e dezembro de 2007, a derrubada de 3.235 km2 de floresta.É importante salientar que os satélites não contabilizam queimadas, apenas o corte raso de árvores. Portanto, nem dá para pôr a culpa na prolongada estiagem do segundo semestre de 2007. Como os satélites só captam cerca de 40% da área devastada, o próprio governo estima que 7.000 km2 tenham sido desmatados.Mato Grosso é responsável por 53,7% do estrago; o Pará, por 17,8%; e Rondônia, por 16%. Do total de emissões de carbono do Brasil, 70% resultam de queimadas na Amazônia.Quem será punido? Tudo indica que ninguém. A bancada ruralista no Congresso conta com cerca de 200 parlamentares, um terço dos membros da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. E, em ano de eleições municipais, não há nenhum indício de que os governos federal e estaduais pretendam infligir qualquer punição aos donos das motosserras com poder de abater árvores e eleger ($) candidatos.Tu eras, Marina, um estorvo àqueles que comemoram, jubilosos, a tua demissão, os agressores do meio ambiente, os mesmos que repudiam a proposta de proibir no Brasil o fabrico de placas de amianto e consideram que "índio atrapalha o progresso".Defendeste com ousadia nossas florestas, nossos biomas e nossos ecossistemas, incomodando quem não raciocina senão em cifrões e lucros, de costas para os direitos das futuras gerações. Teus passos, Marina, foram sempre guiados pela ponderação e pela fé.Em teu coração jamais encontrou abrigo a sede de poder, o apego a cargos, a bajulação aos poderosos, e tua bolsa não conhece o dinheiro escuso da corrupção.Retorna à tua cadeira no Senado Federal. Lembra-te ali de teu colega Cícero, de quem estás separada por séculos, porém unida pela coerência ética, a justa indignação e o amor ao bem comum. Cícero se esforçou para que Catilina admitisse seus graves erros: "É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia.Em que país do mundo estamos nós, afinal? Que governo é o nosso?"Faz ressoar ali tudo que calaste como ministra. Não temas, Marina. As gerações futuras haverão de te agradecer e reconhecer o teu inestimável mérito.



CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO, o Frei Betto, 63, frade dominicano, escritor e assessor de movimentos sociais, é autor de, entre outras obras, "A Obra do Artista Uma Visão Holística do Universo". Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).