domingo, 18 de maio de 2008

Saudades do Neruda


Fotos: blog Canto da boca

Hoje me entreguei ao nada,
me preenchi de um vazio imenso,
deixei a dor cortar a alma até anestesiar a carne,
li Neruda e,
depois de deixar o silêncio interior transbordar por todos os meus sentidos,
me preenchi de Anais Nin.

Gosto Quando te Calas

Gosto quando te calas
Gosto quando te calas

porque estás como ausente,
e me ouves de longe,
minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.
Como todas as coisas estão cheias da minha alma

emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.
Gosto de ti quando calas e estás como distante.

E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.
Deixa-me que te fale também com o teu silêncio

claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.
Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.

Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.


Anais Nin - Indomáveis pensamentos

"Engulo as minhas próprias palavras. Rumino e rumino até que tudo se deteriore.Cada pensamento e cada impulso é mastigado até que se transforme em nada.Quero controlar todos os meus pensamentos de uma vez, mas eles fogem em todas as direções. Se o conseguisse seria capaz de capturar os espiritos mais subtis, como um cardume de pequenos peixes de água doce. Poderia revelar inocência e duplicidade, generosidade e cálculo, medo, covardia e coragem. Pretendo dizer toda a verdade porque, para isso, teria de ser capaz de escrever quatro páginas simultaneamente, quatro longas colunas simultâneas, quatro páginas resultando numa, e essa é a razão porque não escrevo nada. Teria para isso de escrever em reverso, voltar atrás constantemente para agarrar os ecos e os acordes."

sábado, 17 de maio de 2008

Uma estrela chamada Aline


Hoje, o céu ganhou mais uma estrela. Não é uma noite qualquer. É uma noite de lua cheia - essa divindade cultuada como o símbolo da fertilidade, da pureza, da plenitude, a Mãe, o elo com o sagrado. E é a lua que acolhe essa estrela iluminada, feita de amor. O meu lado materialista não pode me limitar a aceitar que a vida finda quando o seu sopro apaga, ainda mais quando se trata de uma menina especial, feita de luz, de fala mansa, sorriso aberto, asas de anjo, sonhos de pássaro.
Os pássaros voam...e, você, Aline, agora está a voar, livre, completamente livre, sem nenhum lamento, sem nenhuma dor, ouvindo os sons que para os nossos ouvidos ainda são inaudíveis e iluminando todas as imagens que os nossos olhos não conseguem registrar. Você agora pode experimentar todos os segredos daquilo que você tanto amava: fotografias, música e gente. Sim, agora você é pura luz.
Voe alto, menina, voe, sem nenhum medo...ilumine os nossos caminhos porque a dor da saudade é grande, mas num dia desses a gente vai se encontrar e a festa vai ser grande porque, finalmente, a gente vai “pular” aquela amarelinha que você me prometeu e fazer uma ciranda alegre com muito brigadeiro e algodão doce rosa, da cor da rosa mais rosa que a terra deixou florescer. E nesta ciranda vai ter tanta gente que a gente ama. De início, só vou citar três: Cássia Eller, Renato Russo e Cazuza...vai ter tanta violada, risadas, poesia e melodias.
Beijos com amor...fique perto da lua cheia...nas minhas noites estarei do meu canto a admirá-las...e, se for possível, me ensine o caminho da serenidade para acalmar esse meu coração tão inquieto.


O Segundo Sol - Cássia Eller

Deixei a noite me abraçar

Bar Scenarium - Rio

Tenho uma grande paixão pelo Rio de Janeiro. Uma cidade desenhada pela natureza. Os morros cortados pelo mar compõem melodias que ecoam nas suas esquinas. Uma cidade escancarada que desnuda suas desigualdades e estampa belezas múltiplas pelas suas ruas. Lá, respiro uma certa paz, o que configura um paradoxo para muitos. Essa paz levemente inquieta não advém apenas das imagens que o meu olhar consegue captar. Vai além das retinas. Está no cheiro, no ar que inspiro, na música. Na última vez em que estive por lá, conheci o bar Scenarium-Pavilhão da Cultura, na Rua do Labradio, no centro Velho do Rio. Um espaço que toca o nosso corpo com o som do choro, do samba, da gafieira, do forró e da MPB. Por entre seu acervo de móveis e objetos antigos, fui fazendo descobertas irreverentes pela excentricidade da sua arquitetura do século XIX e pela sua decoração inusitada: uma cabine telefônica, guarda-chuvas coloridos, bonecas de biscuit, registradoras antigas, câmera lambe-lambe, rosas vermelhas de veludo. Uma mistura deliciosamente kitsch, o antigo, a iluminação de teatro, tudo ao mesmo tempo, num encontro com o passado, num cenário, onde você se sente a atriz, a dançarina.
Ontem, respirei por aqui um pouco do ar carioca no Rocca Botequim. Ouvi o melhor do choro num ambiente bem descontraído e aconchegante. É tão bom sentir a noite assim, ocupando aquilo que parecia oco em você, deixando, como diz a minha amiga Miti, o universo te abraçar. E abraçou.


Eu te amo - Tom Jobim





O meu amor - Chico Buarque



Álvaro Campos (Fernando Pessoa) – Todas as cartas de amor são ridículas


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)



quinta-feira, 15 de maio de 2008

Isso é um Escândalo

Foto: J. R. Ripper/Rio


Três quartos da riqueza existente no Brasil estão concentrados nas mãos de apenas 10% da população. Esses dados são oficiais e constam do estudo "Justiça Tributária: Iniqüidade e Desafios", divulgado hoje pelo presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Márcio Pochmann, durante seminário sobre reforma tributária, promovido pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES).
De acordo com o estudo, o índice de Gini, que mede a desigualdade social de uma população, foi de 0,56 no Brasil em 2006 - o índice varia de 0 a 1, sendo 0 a perfeita igualdade e 1 a completa desigualdade. Segundo Pochmann, isso significa que a desigualdade social diminuiu no Brasil em 2006, mas ainda está no patamar do período militar e em nível pior do que antes do golpe de 1964.
Segundo o levantamento feito pelo Ipea, os 10% mais pobres do país comprometem 33% de seus rendimentos em impostos, enquanto que os 10% mais ricos pagam 23% em impostos. Trocando em miúdos: os mais pobres pagam, proporcionalmente, mais impostos do que os ricos. Então, é urgente, urgentíssima, uma reforma tributária que corrija isso.
Veja: os números do Ipea mostram que os impostos indiretos (aqueles embutidos nos preços de produtos e serviços) são os principais indutores dessa desigualdade. Os pobres pagam, proporcionalmente, três vezes mais ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) que os ricos. Enquanto os ricos desembolsam em média 5,7% em ICMS, os pobres pagam 16% no mesmo imposto. Portanto, é imprescindível desonerar o consumo e taxar a renda e o lucro. Só que diante de qualquer proposta nesta direção, a chiadeira é grande por parte dos ricos que controlam a mídia, o Congresso Nacional e setores importantes do governo.
Nos impostos diretos (sobre renda e propriedade) a situação é menos grave, mas também desfavorável aos mais pobres. O IPVA (Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores) tem praticamente a mesma incidência para todos, com alíquotas variando de 0,5% para os mais pobres a 0,6% e 0,7¨% para os mais ricos. Já o IPTU (Imposto sobre Propriedade Territorial e Urbana) privilegia os ricos. Entre os 10% mais pobres, a alíquota média é de 1,8%; já para os 10% mais ricos, a alíquota é de 1,4%. O presidente do Ipea reconhece que as mansões pagam menos imposto que as favelas, e estas ainda não têm serviços públicos como água, esgoto e coleta de lixo. Esses dados são escandalosos.

Fotos: Blog Canto da Boca

SOCORRO - Arnaldo Antunes



Socorro!
Não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir...Socorro!
Alguma alma
Mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada...
Socorro!Alguém me dê um coração
Que esse já não bate
Nem apanha
Por favor!Uma emoção pequena
Qualquer coisa!Qualquer coisa
Que se sinta...Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Qualquer coisa
Que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva...Socorro!
Alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento
Acostamento, encruzilhada
Socorro!Eu já não sinto nada...Socorro!
Não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Nem vontade de chorar
Nem de rir...Socorro!Alguma alma
Mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada...


Socorro!


Alguém me dê um coração
Que esse já não bate
Nem apanha
Por favor!Uma emoção pequena
Qualquer coisa!Qualquer coisa
Que se sinta...Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Qualquer coisa
Que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva

quarta-feira, 14 de maio de 2008

A VOZ

Maria Tereza Horta - poeta portuguesa

Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido
os dedos que me

vogam
nos cabelos
e os lábios que me

roçam pela boca
nesta mansa tontura
em nunca tê-los...
Meu amor

que quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos...
Mas porque assim te invento

e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei
para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens

Ela é carioca - Adriana Calcanhoto
Hoje me deu vontade de ouvir Bossa Nova. E ouvi.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Saída de Marina Silva: perde o governo, perdemos todos nós, perde o futuro



Existem algumas pessoas que não são apenas indivíduo. São entidades porque incorporam em suas vidas a expressão de uma multidão. Marina Silva é uma dessas raras pessoas. Ela é pra mim a reserva ética que existia no governo Lula – ressalto que a ética não tem nada a ver com o discurso falso moralista da direita, mas sim com os quatro princípios levantados por Leonardo Boff: dar centralidade à afetividade, sensibilidade e ao afeto; o cuidado; a cooperação, lei suprema do universo; e a responsabilidade, no sentido de que cada um tem que dar conta das conseqüências de seus atos. Assim, a ética é aquela capaz de incluir a todos na família humana. Ela se estrutura ao redor dos valores fundamentais ligados à vida, ao seu cuidado, ao trabalho, às relações cooperativas e à cultura da não-violência e da paz. Ética está associada à coerência. E era assim que Marina agia no Ministério do Meio Ambiente tentando implantar uma agenda ambiental coerente que combinasse de forma indissociável o desenvolvimento econômico, social, ambiental, ético e cultural.
Esta seringueira, de saúde frágil, mas uma gigante no enfrentamento à sanha do mercado que, sem nenhuma ética, coloca o lucro acima dos seres humanos e da vida, enfrentou grande batalhas, inclusive dentro do próprio governo. Marina combateu os defensores dos transgênicos; foi contra a instalação de usinas de cana de açúcar na bacia do pantanal, enfrentando na época o governo Zeca do PT – aliás, foi voz ativa contra o plantio de cana em áreas degradadas da Amazônia, Pantanal e Mata Atlântica; criou políticas de combate à grilagem de terra na Amazônia; agiu com rigor na concessão de licenças ambientais para as hidrelétricas; defendeu os povos indígenas, os povos das florestas.
Por enquanto, os inimigos venceram e o sinal está fechado para nós. Não foi Marina que perdeu o primeiro tempo da batalha. Foi o governo Lula. Fomos nós. É o futuro que perde com a saída de Marina.
Não fiquei indignada, infelizmente. Fiquei triste, muito triste...senti um vazio no peito, um grito sufocado. Veio a constatação de que a vida de um militante é feita de vitórias e derrotas, mas
aqui no Brasil, as derrotas têm sido sucessivas, muito sucessivas.


U2 - A Sort of Homecoming



Uma Espécie De Volta Pra Casa
E você sabe que é hora de partir
Em meio ao granizo e a neve que cai
Através dos campos da manhã para uma
Luz que está distante
E você anseia pelo momento
O momento para curar, momento de desejo
E sua terra se move debaixo (de)
Sua própria paisagem imaginária
Oh, oh, oh na fronteira nós corremos
E ainda corremos,corremos e não olhamos para trás
Eu estarei lá,eu estarei lá
Esta noite,uma estrada principal,
uma estrada principal para fora daqui
Os muros da cidade estão todos tombados
O pó uma cortina de fumaça por toda parte vejo
Rostos sulcados como os campos
Que outrora não ofereceram resistência
E nós vivemos à beira da estrada
Ao lado de uma colina enquanto os vales explodem
Deslocada, sufocada
A terra se cansa de si mesma
(oh vamos embora vamos embora vamos vamos embora digo eu)
Oh oh oh na fronteira nós corremos
E ainda corremos,corremos e não olhamos para trás
Eu estarei lá, eu estarei lá
Esta noite, esta noite
Eu estarei lá esta noite... eu creio
Eu estarei lá... de algum modoEu estarei lá... esta noite
Esta noite(oh vamos embora vamos embora vamos vamos embora digo eu)
O vento aflorará no inverno
Esta valsa de explosões e relâmpagos
Sem palavras, apenas um grito...
Hoje à noite construiremos uma ponte atravessando mar e terra
Veja o céu, a chuva ardente
Ela morrerá e viverá novamente
Esta noite
E seu coração bate tão devagar
Em meio à chuva e a neve caída
Através dos campos de manhã
Para uma luz que está distante
Oh não sofra, não chore
Pois esta noite, finalmente
Eu estarei voltando para casa
Eu estarei voltando para casa

Terra - Caetano