E no meu domingo, entre muito beijos e abraços das crias, vibrei com o artigo de Marilene Filinto na última edição da Caros Amigos. Ela diz que a publicidade de cerveja é inimiga social. Concordo com a escitora. Já faz um tempo que tenho me incomodado com um anúncio, bastante agressivo, na TV de uma tal de Abap (Associação Brasileira das Agências de Publicidade). Essa associação tem feito um protesto contra a proibição da propaganda de bebida alcóolica e reclamado o direito à “liberdade de expressão”. Ora, a liberdade de uns não pode prejudicar a liberdade de milhões. Não é necessário ser psicólogo para perceber que as propagandas de cerveja elegem como alvo a juventude e que essa parcela da população é mais suscetível às influências, ainda mais, quando os personagens desses comerciais são mulheres quase nuas servidas em bandejas no bar da "boa". A cerveja é subliminarmente associada ao prazer, à conquista, ao poder fálico. Não diz a tal Abap que, conforme relata Marilene, cerca de 33 milhões de pessoas no Brasil consomem álcool em excesso, fator responsável por 70% das mortes violentas; 42% dos acidentes de trânsito e 45% de todos os problemas familiares e conjugais, inclusive violência sexual doméstica.
No último dia 3 de abril, a Câmara Federal recebeu de mais de 300 entidades um documento com 600 mil assinaturas pedindo a aprovação do Projeto de Lei 2733/08, que restringe a publicidade de bebidas alcoólicas. Atualmente, a legislação que trata do assunto não considera cerveja bebida alcoólica, mas apenas os produtos com teor superior a 13 graus Gay-Lusac (13° GL). Acontece que a cerveja contém 3° GL, teor suficiente para deixar uma pessoa bêbada e sem auto-controle. O projeto de lei quer considerar bebidas alcoólicas aquelas que apresentam concentração igual ou acima de meio grau GL. Se a proposta for aprovada e lutemos todos para que seja, a publicidade de cerveja será limitada a pôsteres, painéis e cartazes na parte interna dos locais de venda.
Pelo visto, a briga está apenas começando. O mercado de cerveja, de acordo com o artigo da Marilene, faturou em 2006 cerca de 22 bilhões de reais e gastou 704 milhões de reais em publicidade. Então, a liberdade de expressão reivindicada pela Abap está associada aos interesses das indústrias e não aos interesses da sociedade. Marilene lembra com muita propriedade o que diz Ignacio Ramonet sobre publicidade, censura e liberdade: “um discurso de propaganda é um discurso que procura, fabricando fatos, ou então ocultando-os, construir um tipo de falsa verdade...Que o discurso de propaganda é, falando com propriedade, um discurso de censura, porque consiste em suprimir, em amputar, em proibir certo número de aspectos dos fatos, ou até a totalidade dos fatos, a ocultá-los, a escondê-los. É preciso armar a sociedade (especialmente os jovens) contra este logro.”


