quarta-feira, 30 de abril de 2008

Uma crônica de amor - Zé Lelé e a paixão. A paixão e o Zé Lelé

Obra "O Abandono" (1905)
Camille Claudel
*Por Edson José de Moares

Bom mesmo é ficar quietinho e esperar o amor passar. Brincadeira boba - assisti na televisão que os índios acham que suas almas são roubadas pelo beijo na boca. Lembrei trecho da música "a televisão me deixou burro, muito burro, demais". Te liguei só por que deu vontade, nem tinha assunto nem propósito, isso é um bom sinal.Vontade de se comunicar. Para mim que vejo o tempo com cara de quem está indo, sem pressa, mas sem esperar, acredito que melhor dele é mesmo quando passa rápido. Nem era agorinha e já é tão tarde. Hoje já é terça-feira, dia de ligar para você de novo, essa agora, os dias passam e essa vontade fica. A vontade de ter uma boa risada, diante da pior das piadas, não pode ser coisa normal. Houve alteração na capacidade de rir sem risco de ser confundido com Zé Lelé, e, isso me deixou mal.Essa coisa de conversar sobre quem nos interessa seria tão normal, né? Mas há um bicho que chacoalha a moita da estupidez, das razões e das opiniões. A gente nem sabe o tamanho do bicho. A passarela é estreita e há sombras que causam medo, e, a moita ao lado da passagem balança, ameaçando sair dela feras ou assombrações. Paro. Suspiro, e ainda não encontrei a coragem para enfrentá-la, meu medo é que só exista esse trieiro, bom, até ver a moita eu tava rindo de Zé Lelé. Agora meu medo é, se esse riso seja coisa de gente feliz, que ouve música e ri sozinho, feliz de estar perto de quem faz rir, naturalmente. Se essa hipótese tiver algum fundamento, as mulheres dos palhaços são as mais felizes do mundo. Eu não conversei com ninguém sobre nós, essas coisas que juntam as cordas "nós" e, ao que me lembre nunca falei de nenhuma paquera, não havia passado, sempre teve um depois de se ver, de se falar, e, ficar. Mas contigo, foi diferente, sua popularidade me carregou pelas opiniões que nunca imaginei, queria sair carregando a mais preciosa carga do mundo, sem ninguém saber o segredo da minha alegria, isso me declarou, não contive o desconforto, foi isso que mais me incomodou. Tenho certeza, sempre que opiniões são dadas sobre as impressões por e de outras pessoas, passam por um filtro, mas não deveriam ser escrito, senão em biografias pós-vida, aí incomodaria o defunto e só. Mas, de longe a nossa breve história saltou em todas as conversas. A começar, pelo menos entre os meus dois amigos, que quase nunca os vejo, com uma rapidez de clique na tomada até acender a luz, e com uma baita amplidão de sol em dia de tempestade, até desconhecidos deixarem recados na porta, uns felicitando, outros não acreditando que fosse possível. Esses últimos, como os primeiros não sabem nem os nomes, mas dão a impressão de conhecer profundamente os "namorados". Falsos testemunhos de que sou chatinho, cabeça dura e, pior, que estou sem eira nem beira, abalaram profundamente a minha fé na humanidade e não sei se serei mais capaz de me reconhecer nos espelhos dos vidros dos automóveis, onde sempre me penteava. De resto, sei que sou forte e corajoso, se não fosse essas duas virtudes você jamais leria esse desabafo heheh.A realidade é uma novidade anunciada em todos os momentos que a gente põe a mão no bolso. A verdade é uma senhora cheia de histórias, e gentilíssima, ela sempre tem um jeito de contar para cada ouvinte, conforme sua simpatia. Claro, ela apesar de gentil, pode mesmo ser muito severa, às vezes ignorante e mesmo, cruel. De resto aqui do alto da montanha vou vendo as nuvens e as luzinhas da cidade, sabe como é, resolvi dar uma voltinha pelos céus da cidade para parar de pensar em você e achar um ovo de páscoa pra entregar para quem eu gosto. De quem nunca foi Zé Lelé. E descobriu gente feliz e boazinha e sem medo de tudo que se esconde. Amoitam-se maldizeres sempre que viam namorados, no nosso caso chacoalharam o pé-de-encantamento, movem pra lá e pra cá, sem o devido cuidado com a plantinha, que nem desconfia que ela não nasce em pedras.

* Edson José de Moraes, é designer, ilustrador, poeta, animador cultural e militante

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Blogagem Coletiva - Dia de Poesia

Foto: Elis Regina Nogueira - Livro Outros Sentidos, de Victor Barone

Hoje, vários blogs no mundo, postaram poesias - alimento necessário para a alma. Pensei em vários poetas e decidi postar mais um poema do Victor Barone, que estará lançando o seu primeiro livro, Outros Sentidos, no próximo dia 05 de junho, Dia do Meio Ambiente, um dia simbólico e que tem tudo a ver com poesia, com verso - esse elo fundamental para integrar o homem e a mulher ao cosmo, ao ethos, à sua morada, à grande casa que é o planeta. O local do lançamento será o Museu de Arte Contemporânea, outro espaço simbólico: museu guarda viva a memória humana, o nosso traço na história, o verbo anunciado, rasgado, registrado...tudo vai acontecer numa noite também simbólica, dia de lua cheia, iluminada, grávida de amor, de palavras doces, amargas, ácidas, expressadas assim como são os versos criativos de Victor.

O outro poema que posto é de Maria Tereza Horta, poeta portuguesa, uma descoberta recente, que me envolve com a sensualidade do sensível, do tácito, do real, do imaginário. Agora, falta você postar o seu poema, deixando os nossos encontros no coreto virtual com ar de recital.


Victor Barone
Os olhos vazios de você
observam meu peito repleto de nada.
E como faca
esta saudade desliza em mim.
Abrindo na pele um livro de sangue.
Meus lábios sedentos de você
observam este mar
que meus olhos encharca.
E como seta
esta ausência se crava em mim.
A lembrar que não há rima
que cure esta falta.


Maria Tereza Horta
Desperta-me de noite

O teu desejo

Na vaga dos teus dedos

Com que vergas

O sono em que me deito

É rede a tua língua

Em sua teia

É vício as palavras

Com que falas

A trégua

A entrega

O disfarce

E lembras os meus ombros

Docemente

Na dobra do lençol que desfazes

Desperta-me de noite

Com o teu corpo

Tiras-me do sono

Onde resvalo

E eu pouco a pouco

Vou repelindo a noite

E tu dentro de mim

Vais descobrindo

Revista Fórum: vale a pena ler

Nesses tempos de pensamento único e ditadura do consenso na grande mídia, vale a pena mesmo buscar as leituras alternativas. Além da Caros Amigos, do Jornal Brasil de Fato, uma revista muito interessante que circula mensalmente é a FORUM. Na última edição, ela entrevista o jornalista Paulo Henrique Amorim, que foi demitido recentemente do Portal IG. Paulo Henrique diz que a BrOi e Daniel Dantas são os responsáveis pela sua demissão, faz uma análise da imprensa, da política nacional e das privatizações e afirma: compra da Brasil Telecom pela Oi será a “grande conciliação nacional” envolvendo PT e PSDB. Não concordo com vários pontos de vistas de Amorim, mas não tenho dúvida de que informações importantes da relação promíscua do poder do capital e do poder palaciano com a mídia são reveladas. A exemplo do que fez a Kelly sobre o Michael Moore, também, acho oportuno esclarecer: Paulo Henrique não é socialista e nem de esquerda. Leia abaixo um trecho da entrevista.

Paulo Henrique Amorim denuncia: a BrOi e Daniel Dantas me demitiram
Por Renato Rovai e Glauco Faria


Fórum – Quando o senhor identifica o início da degradação da imprensa brasileira?
Paulo Henrique Amorim – Chegamos a um ponto sem precedentes em termos de degradação e corrupção da imprensa brasileira. A imprensa que chamo de Partido da Imprensa Golpista, ou PIG, é, sobretudo, a Globo, a Folha e o Estadão. Não falo da Veja, porque é um caso especial que eu chamo de “a última Flor do Fascio”, nem da IstoÉ, porque não é uma organização jornalística. Quando você compra um jornal, teoricamente, pelos cânones da indústria, vai obter ali um noticiário razoavelmente isento e, nas páginas de opinião, fica aquilo que o dono quer divulgar. Aqui no Brasil, houve uma inversão completa. Hoje, tem opinião na parte informativa, até no horóscopo e na previsão do tempo, e o mais grave de tudo isso é que se disseminou o sistema de cooptação com dinheiro do jornalismo econômico e político. Tenho divulgado no meu site as relações entre o Daniel Dantas e algumas instituições, cuja função é distribuir notícias que influenciam formadores de opinião, a Justiça... É uma degradação sem precedentes. Meu ex-colega do IG, Luís Nassif, tem feito um trabalho exemplar ao apontar as ligações sórdidas entre a Veja e interesses econômicos constituídos. Não há nenhuma punição, nenhuma reclamação, nenhuma manifestação de indignação, os jornais do PIG não noticiam o que o Nassif está dizendo. É a maior revista semanal do país e ignoram o que fala um jornalista respeitável que trabalhou na Folha durante uma década, do Conselho Editorial da Folha. Ou seja, Nassif não é irresponsável segundo a Folha. E a Folha não dá uma linha! O Mino Carta, que é o pioneiro nessa batalha para demonstrar a pusilanimidade, o golpismo e agora a corrupção na imprensa, acha que nós não chegamos no fundo do poço, que ainda iremos mais fundo e saberemos mais coisas e a impunidade continuará.

Fórum – O senhor acredita que essa degradação se agravou durante o processo de privatização?
Amorim – O presidente do México, Carlos Salina de Gortari, vendeu a telefonia do México para uma pessoa, que é o Carlos Slim, hoje o homem mais rico do mundo. Salinas de Gortari teve que fugir do México para a Irlanda porque nem em Miami ele podia ficar. O Fujimori, que fez a privatização no Peru, está preso. O Carlos Menem, que fez a privatização na Argentina, tem vários ministros na cadeia e não pode ver um juiz ou policial que sai correndo, pode ser preso a qualquer momento. Aqui no Brasil o Fernando Henrique Cardoso cobra US$ 60 mil por palestra e sai no PIG toda hora. E as pessoas levam o Fernando Henrique a sério, é o herói de uma parcela da população brasileira. Vou desenvolver essa tese com mais clareza, mas houve, na transição do regime militar para o democrático, a tragédia da dívida nos anos 80. O Brasil quebrou em 1982, o fenômeno da hiperinflação, e o Sarney tentou resolver, o Collor tentou resolver, e o Fernando Henrique tocou o Plano Real. O plano, entretanto, tinha, como base para solucionar ou para auxiliar a equacionar o problema, a privatização, um instrumento pelo qual o sistema político dominante à época – o PSDB e o PFL – encontrou para acomodar os interesses políticos internos, domésticos, da coalizão dominante e os interesses dos bancos. Ela foi o fiel da balança dessa reengenharia que levou ao sucesso o Plano Real. Agora, temo que a operação de criação da BrOi seja a consubstanciação, aquele quadro do Napoleão sendo coroado, que está na igreja de Notre Dame. O quadro começa a ser pintado a partir do momento em que o Luciano Coutinho, presidente do BNDES, assina o empréstimo para o Carlos Jereissati e o Sérgio Andrade comprarem a Brasil Telecom, sem botar um tostão. Nesse momento, será feita a grande conciliação nacional, os fundos e o Citibank renunciam a toda ação [judicial] que moveram na Justiça contra o Daniel Dantas. O governo Lula põe para dentro a corrupção do Dantas e do governo FHC, limpa a pedra e resolve esse problema botando o dinheiro do BNDES nas mãos desses dois subempresários, já que eles compraram a Telemar sem gastar também. Aí será feita a grande pacificação nacional, que mobilizou essa subimprensa de contratos de prestação de serviços, mas que você nunca sabe que serviços são esses. Então, se houver o Aécio [Neves] candidato em uma chapa que reúna PSDB e PT, como está sendo montada em Belo Horizonte, resolve tudo. Põe todo o Brasil debaixo do tapete. O PSDB esconde ossos do Fernando Henrique no armário do Lula, o Lula esconde no armário seus próprios esqueletos, e o Brasil vai seguir em frente com a conciliação que o Tancredo [Neves] tentou fazer e não conseguiu porque morreu antes. A privatização é o que define o processo da Nova República no regime pós-militar, é a metástase da corrupção no Brasil. O Daniel Dantas é o maior símbolo, herói e beneficiário desse processo que corrompeu o PSDB, o PFL e o PT. Ele corrompeu o PSDB, financiou a filha do Serra e ele é a grana que está no duto do Valerioduto. Que o procurador-geral da República não procurou e que o ministro Joaquim Barbosa não achou. A grana do Valerioduto veio de onde? Dá em árvore ou o Valério era maluco e colocava dinheiro dele no esquema? Ele era um lavador de dinheiro e ninguém quer dizer isso. Fizeram a CPI dos Correios e não pediram indiciamento do Daniel Dantas, porque a bancada dele tem um líder no senado, que é o Heráclito Fortes, e tem um líder na Câmara, que é o José Eduardo Cardozo.


Fórum – Então a tentativa do PT de incluir o Daniel Dantas na CPI dos Correios foi uma farsa?
Amorim – Foi uma tentativa de última hora, feita depois que o relatório estava escrito e que não resultou em nada. Durante a argüição do Daniel Dantas, o senhor José Eduardo Cardozo fez perguntas que o Dantas esperava que fossem feitas e o Jorge Bittar (PT-RJ) fez perguntas inúteis. Ninguém do PT perguntou se o Dantas colocava dinheiro no Valerioduto. E era a única pergunta que cabia ali. Por que o PT não foi pra cima do Dantas? Porque o cara da bancada do PT não sabe se quem está do lado dele pegou dinheiro do Dantas. O Dantas calou o PT, o Dantas imobilizou o PT, porque o Dantas comprou uma parte do PT. Pode escrever aí.

Fórum – No PT, havia uma disputa que envolvia o Luís Gushiken, os fundos e a participação do Dantas...
Amorim – O Gushiken pagou o preço de ter tirado o Dantas da Brasil Telecom. E outro que pagou o preço foi Paulo Lacerda, homem probo e policial eficiente. Foi tirado da Polícia Federal porque queria prender o Daniel Dantas.

Fórum – O senhor já conversou sobre isso com o Paulo Lacerda?
Amorim – Não posso revelar.

Fórum – Bom, a respeito da sua demissão do IG...
Amorim – Tenho minha coleção de demissões, mas vamos lá. Ali é um processo de “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. O Sr. K [o presidente da Brasil Telecom, Ricardo Knoepfelmacher], como mostro no meu blogue, a letra “K” aponta para direções opostas e esse é seu grande enigma: para que direção o Sr. K aponta? Ele entrou como presidente da Brasil Telecom como representante dos fundos e do Citi para desfazer as falcatruas do Dantas. Ele me contratou porque eu tinha uma história na internet de combater o Dantas. Isso ele me disse. E por que de repente isso mudou? Essa é a pergunta-chave da história. O Sr. K recebia pressões de diversas áreas, do José Serra, que tem uma tradição de pedir a cabeça de repórteres; do Carlos Jereissati e do Sérgio Andrade; e do Citibank. Porque eu, com o Rubens Glasberg e o Mino Carta fomos os únicos jornalistas que perguntaram: vale a pena fazer a BrOi e passar uma borracha no passado do Dantas? É esse o custo de fazer a BrOi?. Quanto dinheiro do senhor Jereissati e Andrade vai entrar nisso? Entrei com um documento, quero a BrOi, e dou um real a mais do que os dois colocarem do próprio bolso. No meio do ano passado, o Sr. K tentou montar um conselho editorial para cercear minha opinião. Eu não posso revelar quem eram as pessoas que compunham o conselho, mas digo que eram pessoas que tinham por mim o mesmo apreço que tenho por elas. Consegui impedir que isso acontecesse. E me pergunto para que, já que 95% do conteúdo de um portal é de terceiros? Depois veio uma tentativa de me tirar da capa do IG. Levei seis meses negociando com o Sr. K esse ponto: só vou para o IG se tiver espaço na capa. Sabia, porque no UOL já tinham me feito isso. E ele precisou de seis meses para impor a vontade dele e me colocar na capa. Depois, ele quis me tirar da capa. Foi uma batalha em que o Caio T – de Tartufo – Costa desempenhou um papel nobre e edificante. E eu ganhei. Finalmente, estávamos na antevéspera da solução do problema da BrOi, na antevéspera da Semana Santa, e ele me tirou do ar. Agora, ele me tirou do ar com uma tecnologia que o Caio T – de Tartufo – Costa conhece muito bem, que é tirar do ar fisicamente. Ele me tirou do ar antes que pudesse ser notificado, estava no segundo bloco de um programa que gravo na Record e a minha equipe já tinha sido escorraçada do IG, os computadores lacrados, os crachás retirados. O Caio retirou meu trabalho de dois anos no ar. Ele apagou o meu passado. Ele fez uma limpeza ideológica. Por que ele não me avisou e não redirecionou o internauta para o novo endereço? Como a Globo fez com o Franklin Martins, ela não o queria mais, mas redirecionou [o internauta para o endereço novo]. Por que [ele] quis me apagar?


Fórum – Você disse que o Caio Túlio Costa já teria feito coisa semelhante.
Amorim – Estou precisando comprovar casos específicos, mas ele fez comigo no UOL. Uma série de informações que eu dava sobre as relações amistosas e dignificantes entre duas grandes personalidades brasileiras, José Serra e Nizan Guanaes. Não há registro físico, é uma especialidade dele suprimir isso. E olha que dá aula na Cásper Líbero sobre Jornalismo e Ética... Mas ele é um pau mandado, executa com entusiasmo o que o patrão mandou fazer. O Sr. K também serve a vários patrões. Fui demitido porque escrevia contra a BrOi e Daniel Dantas.


Fórum – Seu trabalho na televisão é bem diferente da internet. Por quê?
Amorim – Na televisão, não trato desses assuntos. A internet tem uma vantagem, você pode fazer o que quiser. É o último reduto da liberdade de imprensa e, felizmente, aqui no Brasil, está nascendo algo similar ao que já existe nos Estados Unidos. A blogosfera está se transformando em um espaço de debate político relevante. Não estou mais interessado em discutir política, economia, essas coisas mais sensíveis na televisão. A televisão brasileira não é o espaço mais apropriado para isso e quando se faz, se faz mal feito. É a Miriam Leitão, William Waack, Arnaldo Jabor, Alexandre Garcia, esses grandes jornalistas que fazem a televisão brasileira. Então, não quero mais tratar disso na televisão. Ali, faço parte do Domingo Espetacular e sou repórter, como fui no Fantástico por seis anos em Nova Iorque, de onde fazia matérias que não tinham nada a ver com política. Cobria incêndio, crime, enchente, guerra civil... Sou repórter, porque esse pessoal que está aí, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, que acham que são jornalistas, não sabem cobrir uma batida de trânsito na esquina. Se mandar cobrir, chegam na redação com informações inverídicas e incompletas. Por isso não trato com esses camaradas, eles não são da minha profissão. Eles vendem a opinião deles. E não troco minha opinião por nada. Agora não quero saber de portais que só reescrevem o que sai na Agência Estado, Folha e Globo – uma reprodução mal feita.

Fórum – É impossível discutir política e economia na TV? Quando o senhor fazia o Tudo a Ver dava, ao menos, alguns pitacos sobre esses temas.
Amorim – Era muito limitado e foi ficando cada vez mais. Trabalhei na Globo em um período que tinha hiperinflação e chegaram à conclusão de que era necessário ter jornalistas de economia na televisão. E o Delfim Netto diz, com muita propriedade, que no Brasil jornalista de economia não é uma coisa nem outra. Hoje, na Globo acontece o seguinte: o Roberto Marinho morreu e foi substituído por três filhos que não têm curso universitário. Nenhum deles é conhecido pelo nome próprio, são filhos do Roberto Marinho. Colecionam fracassos empresariais. O mais velho, Roberto Irineu, é responsável pelo “grande sucesso” da Tele Montecarlo. Os três, por omissão/incompetência, delegaram o comando das suas redações a alguns prepostos, entre os quais se destaca o Ali Kamel [diretor-executivo da Globo], que escreveu um livro para mostrar que o Brasil não é racista e revelou o Brasil racista. E eles escrevem o que imaginam que o patrão vá gostar de ver. Mas isso tudo carece de um mínimo de sutileza, de argúcia, que o velho tinha. O velho, dificilmente, na base de operações que é o Rio de Janeiro, brigaria com o presidente, com o governador e com o prefeito. Desconfio que o outro Roberto não faria isso, se ele e Antonio Carlos Magalhães estivessem vivos, estariam trabalhando com o Lula. Estariam trabalhando na base do governo, na sombra. Não é muito bom estar brigado com o governo federal por muito tempo.


Fórum – Mas se o presidente Lula está fazendo essa conciliação, por que o PIG quer derrubá-lo?
Amorim – Porque ele é pobre e nordestino, é uma combinação de preconceito de raça com preconceito de classe.


Fórum – A possibilidade de aliança PT-PSDB em Belo Horizonte é resultado dessa conciliação?
Amorim – É o resultado físico da conciliação. Com esse mesmo espírito de concertação que uma candidatura Aécio com apoio do PT é um velho sonho da elite brasileira, da qual o Lula quer fazer parte, que é o Pacto de Moncloa eterno. Nós não somos a Argentina e lamento profundamente. Gostaria de ser argentino para ser militante peronista. O presidente Néstor Kirchner desfez o Supremo Tribunal e o presidente Lula nomeou para o STF um xiita católico que se posiciona contra as pesquisas com células-tronco. Esse Carlos Alberto Direito, que conheço desde que éramos estudantes da PUC, disse antes que era contra a pesquisa com células-tronco. Tem que tirar o Marco Aurélio de Mello de lá. Ele é um golpista, despreparado, não passa nem em prova de juiz de primeira instância. Eu tenho a tese: o que o PT de São Paulo mais quer é ser tucano de São Paulo. E acho que uma das grandes coisas que pode acontecer com um grande acordo entre Aécio e o PT é tirar São Paulo do centro. Chega de São Paulo! O Brasil é muito maior que São Paulo.

Fórum – O senhor aponta as contradições do governo Lula, mas também se posiciona como resistência antigolpista.
Amorim – Veja bem, acho Lula melhor do que o Fernando Henrique. Acho os tucanos um conjunto de tartufos, são administradores incompetentes, FHC quebrou o Brasil três vezes. Governam São Paulo há 13 anos, metrô cai, o viaduto cai, você demora uma hora e meia para chegar no trabalho. Dê um exemplo do que os tucanos fizeram aqui? São incompetentes, ineptos. Sou contra os tucanos. Tenho uma identificação político-ideológica, sou carioca, minha simpatia fica com Leonel Brizola, que dizia que o PT era a UDN de tamancas, o Darcy Ribeiro dizia que o PT era a esquerda que a direita quer... Gosto do Jango [João Goulart], do [Getúlio] Vargas e acho que o PT cometeu um grande erro quando achou que a direita ia vê-lo sob outra perspectiva. A direita os vê da mesma forma que via o Brizola, o Jango e o Vargas, porque o PT é trabalhista como eles. O Lula achou que ia encantar o PIG, a família Marinho e, como dizia o doutor Tancredo, “você vende a mãe mas não vende seus interesses”. O Lula não caiu porque o Fernando Henrique não deixou. Naquele momento em que o Duda Mendonça confessou que recebia dinheiro do exterior na CPI, se sobe um deputado na mesa da Câmara e na presidência da Casa está o Auro de Moura Andrade , o Lula caía. Por que o Lula não caiu? Porque o Fernando Henrique defendeu a tese do sangramento. E o Agripino Maia comprou e convenceu o PFL. Qual a teoria? Deixe o Lula sangrar até o fim, ele chega na eleição derrotado e o povo brasileiro iria buscá-lo [Fernando Henrique] em Higienópolis. Se tivesse o ACM, o Herbet Levy ou o Padre Godinho, o Lula tinha caído. E o que está por trás disso tudo? O escândalo do Mensalão. Quem está no Mensalão? O Dantas. Disse a um amigo meu quando Lula foi eleito em 2002: “Ou o Lula destrói o Dantas em três meses ou o Lula destrói seu governo”. Quase destruiu. O presidente de um fundo de pensão disse que participou do acordo da BrOi, porque era o mesmo que negociar a paz com o chefe do tráfico de uma favela. Que país é esse?


Fórum – Não se cria, em torno do Dantas, um poder maior do que ele tem de fato? Amorim – Dantas enredou Fernando Henrique Cardoso. Agora enredou o Lula. O que ele fez com FHC? Trocou o conselho da Previ ... Por quê? Porque o Dantas tem o PSDB na mão. Fórum – O Dantas tirou o senhor da TV Cultura e do UOL? Amorim – Tirou, entrou com duas notificações e a TV Cultura e o UOL me pediram para parar de falar dele. Tenho uma luta com Dantas há muito tempo, há muito tempo eu percebo que ele é especial. Mas um dia a gente vai se encontrar no despenhadeiro. Ele grampeou a mim, a minha mulher e a minha filha. Soube disso pela Polícia Federal. Essa conta ele vai acertar comigo. Ele vai acertar comigo. Nós vamos ter um encontro no despenhadeiro e vamos acertar essa conta. No plano privado. O que você acha de grampearem sua filha noiva? O que você faria?

Renato Rovai e Glauco Faria

domingo, 27 de abril de 2008


Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Nesta manhã de domingo, fui visitar alguns blogs e lá, na Alemanha, no canto virtual da Roseane, encontrei uma foto de Lula e José Serra, uma imagem que deve estar estampada nos jornais de hoje. Mas o interessante mesmo foi o comentário: “Por trás de uma boa causa...tem...hummm...hummmm....um plano, hummm....um jogo?!!! Ou será uma eleição?!” Roseane está certa. Por trás da cena têm eleições e alianças, cada vez mais, disformes. E por todo canto começam pipocar alianças do PT com PSDB. E entre as besteiras que o presidente Lula, às vezes, solta, está uma cantada que deu no Aécio. O tucano pode ser ungido pelo presidente como seu sucessor, desde que vá para o PMDB. E, aqui, na nossa terra, o que parecia impossível acontece: nos bastidores, o PT se oferece para o PMDB. Não acredito que o PSDB tenha mudado. Nem que o PMDB guaicuru tenha se transformado. Quem parece que está mudando de lado é a cúpula petista. Como diz o frei Betto sobre essas alianças: “Nunca vi cabeça de bacalhau, mendigo careca, santo de óculos, ex-corrupto, nem filho de prostituta chamado Júnior. Nunca imaginei que, fora dos grotões, onde o compadrio prevalece sobre princípios ideológicos, veria uma aliança entre PT e PSDB. Mas o impossível acontece em Belo Horizonte, com ampla aprovação das bases petistas (...)Os tempos e os costumes mudam, já diziam os latinos; as pessoas e os partidos também. Eu é que deveria ficar mudo, já que teimo em acreditar que fora da ética e dos pobres a política não tem salvação. Deve ser culpa de minha dificuldade de entender por que às vésperas de eleições todos debatem nomes de candidatos. E não propostas, programas e prioridades de governo.”


Nem uma coisa, nem outra
Adoro literatura Infantil. Além de ler com os meus filhos, fazendo as descobertas no mundo fantasia, quando me sinto saudosa, corro ao cantinhos deles para percorrer o mundo da imaginação. Ontem reli “Nem uma coisa, nem outra", de Moacir Scliar. Do Moacir só conheci esta obra, mas sei que é um escritor brasileiro consagrado, que, uniu num mesmo caminho o amor pela medicina e a paixão pela arte literária, escrevendo vários livros, entre eles A orelha de Van Gogh e O exército de um homem só. Em Nem uma coisa, nem outra, Moacir conta a história de uma larva que adora a sua condição de larva e, por isso, vivia um dilema: diferente de nós, humanos, que não teríamos dúvida em nos metamorfosear numa linda borboleta azul, a pequena larva, rápida, falante e inteligente, mesmo desejando voar, também adorava correr pelos galhos, adorava ser larva. Borboletas voam, mas não correm. E não que é que Tininha, a larva, consegue ter um corpo metade borboleta e metade larva, só não consegue mais voar e nem correr, fica presa num vidro – um ser raro, objeto de estudo. Um dia sonha que é borboleta, um dia sonha que é larva...às vezes, me sinto assim: um dia larva, um dia borboleta, só não consigo correr, não consigo voar, uma metamorfose incompleta.

Todo Azul do Mar - Flávio Venturini
Para o grande amor da minha vida, com quem há 18 anos, no dia 27 de abril, em Brasília, numa noite com música, arte e poesia, celebrei a decisão de partilhar teto, cama, sonhos e vida. Com quem experimento o desafio diário de reinventar o amor.


Amor Antigo
Drummond

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede.
Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mais pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
Esta poesia me lembra a Kelly, a Mitie, a Dani, que também têm amores antigos.

sábado, 26 de abril de 2008

Poeta Victor Barone lança Outros Sentidos

O que seria da vida se não existissem os poetas???É tão bom tê-los nas noites de lua cheia, nos dias em que o vazio da solidão transborda, quando os sentimentos pulsam, expulsando a ausência gritante, quando o amor corta feito navalha, quando a indignação nos rouba as palavras. Como vocês, não sei viver sem poesia. Então, quero fazer um convite especial, anote aí, na agenda, e passe adiante:Lançamento do Livro Outros Sentidos do poeta Victor Barone, no dia 05 de Junho, no Marco, em Campo Grande, numa noite de lua cheia. Imperdível.


O livro nasceu assim: Victor é jornalista e um grande poeta, carioca e já sul-mato-grossense. Seus poemas já circulavam, mas nunca tinham tomado forma de livro. Um grupo de amigos se juntou e reuniu o que tinham de melhor: sonhos, fotografias e paixão pela arte. O resultado é um livro diferente, onde poemas, fotos, traços ilustrativos e projeto gráfico compõem com sinergia uma obra deliciosamente ousada, feita na raça, por amor a arte e sem nenhum patrocínio. Agora, é a sua vez de participar do projeto do livro, adquirindo-o, lendo-o, divulgando-o, deixando a poesia falar por todos os sentidos do seu corpo e da sua alma. As fotografias são de Elis Regina Nogueira, que transforma luz em imagem e poesia.

Percorrer os caminhos dos versos do Victor Barone é sentir que as palavras ganham forma, cheiro, som e sentimentos, deixando marcas na pele, no olfato, na boca. Elas provocam melodias, zunidos, transbordando o vazio deixado pelo silêncio. Às vezes, cortam feito navalha, às vezes, compõem cenários de flores, sensualidade, mansidão, senduzindo os olhares sedentos gestos, cores e paladares. O verbo do Victor preenche lacunas, ausências e faz um sapateado sobre desejos, compondo outros sentidos, tocando todos os sentidos.




Pétala - Victor Barone

Cai a pétala cara a mim.

Rodopia no ar

criando nuances e cores

de pétala que vai.

É rubra enquanto cai a pétala

que boiando no ar

tornar-se-á exangue.

Como dói ao olhar

o frenético sangrar

da flor voante.

Como sarar em meu corpo

o perene partir desta cor...?

quinta-feira, 24 de abril de 2008

A vida da atriz, a morte e as utopias libertárias

Foto:
blog O Concílio do amor

O corpo dela sangrando no chão. Ali não havia mais sonhos esfacelados. Há algum tempo eles já estavam mortos, exauridos, porque a antítese da morte não é simplesmente ter um corpo e respirar. O vazio mortífero já tinha consumido as suas entranhas, os sentimentos, o seu eu. Foi uma mutilação gradativa. Primeiro, decepando sua esperança, rasgando seu coração, como uma flor sendo cortada, esquartejada na brincadeira do bem-me-quer-mal-me-quer. Depois, sendo violada, sua genitália em flor devorada, sua essência sendo extirpada, seus mistérios rasgados pelos abutres do poder, desenhados em forma humana por pinceladas, nas quais as relações sociais são traçadas pela força fálica. Logo com ela, que conhecera o amor. Ela, a atriz, já não sabia mais o que era o texto, o contexto, o real, o imaginário, a loucura, a verdade, a mentira. E para aliviar a dor, a mágica presente na cápsula clandestina, marginal. A cápsula que, contendo o azul quando o vazio é cinza, estanca, provisoriamente, o peito que sangra. E sob o efeito do azul, a atriz dança, porque dançar é ficar nua mesmo quando o corpo é coberto de cordas em forma de roupa. O amor não bastava mais. Ela não sabia que podia confiar nos seus sentimentos, que podia acreditar na força da sua interpretação, experimentar todas as máscaras e, para o amor, se entregar inteira... ela perdera a crença em si. E perder a crença é dar a sua própria sentença de morte, é assinar o seu atestado de óbito. Ela já estava morta. Correr para a rua, o atropelamento, seu corpo esticado no chão, tudo isso foi apenas o adormecer eterno. E, assim, a atriz encerrou o seu espetáculo na arte de encenar a liberdade num regime autoritário, truculento, que teme e treme diante do sonho. Para alguns, ela foi ardilosa, dissimulada, aceitando o jogo fácil da traição. Para mim, ela já não era ela - era o seu fantasma -quando decidiu capitular e se prostituir na relação com o sistema, numa atitude tão indigna, tão vil. A vida da atriz me marcou profundamente no filme A vida dos outros, sobre um dramaturgo socialista e uma atriz, alemães orientais, que viviam em Berlim antes da queda do muro - sob um regime que nasceu para construir utopias libertárias e se rendeu ao capitalismo de Estado e à truculência do totalitarismo. E as marcas ficam.

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sobre o filme A Vida é um Sopro:


Ela faz cinema - Chico Buarque


Beatriz - Olivia Byington

Liberdade midiática: eu quero uma pra viver

Graúna, do Henfil

Um dia desses fui dar uma palestra sobre a Mídia no Século XXI numa conferência partidária. O evento me surpreendeu. Há entre as pessoas que pensam um desejo enorme de debater o papel dos meios de comunicação na sociedade contemporânea e suas gritantes contradições. Vivemos numa sociedade democrática, mas na mídia não circulam pensamentos diferentes, não há confronto de idéias. Basta você olhar nas bancas as manchetes dos jornais nacionais: o mesmo título, a mesma abordagem. Como diz o grande mestre Bernardo Kucinski, “a ideologia de todos os veículos de grande imprensa possui o mesmo código genético”. Um parodoxo se formos comparar com a ditadura militar. Naquela época, o jornalismo vivia sob o corte nefasto da tesoura autoritária da censura e, mesmo assim, existiam veículos, como por exemplo o Correio da Manhã, que ousavam criticar o regime. Hoje, quando a sociedade reivindica o direito de ser plural, a mídia tem um pensamento único e arcaico e se comporta sob o efeito de uma auto-censura, elege as pautas que considera importante para sociedade, exclui outras sob o argumento de que é dententora de um saber especial e pode selecionar aquilo que é relevante para a opinião pública e, muitas vezes, para se apresentar como “independente” (de quem, cara pálida???), entra na era do denuncismo, não para criticar o sistema, o Estado capitalista, mas para entrar apenas no campo da moral, no superficialismo. Uma postura que Emir Sader analisa com profundidade e mostra que, em nenhum momento, do bombardeio midiático contra a corrupção se questionou o modelo de Estado. Claro, não interessa ao poder midiático as transformações sociais e econômicas e nem o pensamento elaborado, a complexidade. Cada vez mais, se trilha o caminho do maniqueísmo. Busca-se infantilizar o cidadão, por meio do entretenimento, da comoção.
Basta ver o tratamento dado domingo pelo Fantástico às eleições paraguaias e o caso da menina Isabella. Mais uma vez, um exemplo de anti-jornalismo. A revista eletrônica da Globo, emissora de maior audiência, dedicou cerca de dois minutos para falar do grande fato histórico no Paraguai, ou seja, o fim de seis décadas de tirania do Partido Colorado, e, na mesma edição, num jogo de cena dramático, pior do que novela mexicana, usou dois blocos do programa para uma entrevista de quase trinta minutos com o pai e a madrastra da menina Isabella. Em nenhum momento, a morte da garota foi contextualizada no cenário de violência contra a infância e a juventude, que vitimiza milhares de crianças nas favelas, becos e vilas.
Esse comportamento midiático é chamado por Chomsky de “fábrica de consenso”. E nessa fábrica, que opera em âmbito mundial, o pensamento divergente fica à margem. O fenômeno teve origem nos Estados Unidos e engendra um sistema de controle muito eficaz porque é subliminar, é como o ar que não vemos. “Funciona como uma certa lavagem cerebral em liberdade”. E dentro deste contexto, estão muitos jornalistas, ao mesmo tempo algozes e vítimas de suas crenças neoliberais, de sua auto-censura, do jogo competitivo. Kucinski faz um diagnóstico precioso: os jovens jornalistas sofrem muito mais do mal da censura interna, da restrição à liberdade de expressão e de criação do que o jornalistas que trabalhavam nos anos de chumbo. Os meninos e meninas da mídia compartilham os valores do neoliberalismo, como o sucesso pessoal, o individualismo, o espírito de competição e relativo descaso com os problemas sociais. “Mas a sua aplicação pelos patrões como modelo de controle das redações voltou-se contra os próprios jornalistas. Um padrão mais autoritário do que nunca, que se vale da ameaça de demissões, marca hoje as relações funcionais nas redações. A rotatividade chega a 30% ao ano”, afirma o professor.
É, por isso, que neste século XXI, são imprescindíveis os movimentos pela democratização da comunicação, resgatando-a como uma direito civil (liberdade de expressão), direito político (participação no exercício do poder público diretamente) e direito social (produção e consumo de comunicação, informação e cultura). Mas as raras exceções existem e elas são preciosas na nossa terra guaicuru.