* Por Kelly Garcia
Confesso que o assunto escolhido me traz certa insegurança, porque não me sinto à vontade para escrever sobre filmes. Sou apenas uma pessoa sentada na poltrona e minhas percepções são bastante instintivas. Portanto já esclareço logo de início, para os amantes do cinema e profundos conhecedores, que não vou abordar aspectos técnicos do filme Sicko - $O$ Saúde, do diretor Michael Moore, que assisti nesse final de semana no Cinecultura. Tanto Fahrenheit 11 de Setembro como no Tiros em Columbine, que garantiram, pelo menos, no Brasil a notoriedade de Moore, colocam o diretor como crítico do governo americano, especialmente, do atual presidente, o Bush. Embora muitos atribuam a Moore uma postura política de “esquerda”, suas declarações e produções dão a ele uma característica apenas de “crítico” de determinadas ações políticas. Não havendo elementos mais consistentes que permitam afirmar que “ele é socialista”, ou “é de esquerda”. Com isso quero deixar claro que não vejo no diretor uma futura liderança socialista em solo americano. O seu limite é a crítica. Aliás, que deveria ser perfeitamente entendida numa sociedade que se intitula o exemplo de democracia para todas as nações. Marketing à parte... e lucro da indústria cinematográfica...o filme tomou para mim um caráter especial porque de certa forma deu conta de extrapolar um problema interno do “gigante”, e dar para a gente a rara oportunidade de ver, literalmente, uma ferida aberta na sociedade norte-americana, provocada pela privatização total do atendimento à saúde. E poder ver o resultado disso tudo nas suas vísceras, ficou ainda mais interessante, porque sabemos que as privatizações foram defendidas e impostas por influência do governo americano em vários países, especialmente na América Latina, que operou em nome da expansão do capital e garantia de lucros dos principais investidores mundiais. Saber que nos EUA tem gente vivendo em situação de miséria não foi novidade - conforme dados recentes, são 10 milhões de pessoas vivendo nessa condição. Agora tomar conhecimento que, mesmo a um cidadão americano que tem dinheiro e condições de pagar um seguro de saúde, lhe é negado atendimento pelas empresas que controlam o ramo, isso, sim, foi uma surpresa!! E me questionei onde está a força norte-americana de reagir contra a exploração? Onde está o heroísmo norte-americano de transformar a sociedade pela democracia? Onde estão os poderosos tribunais americanos? Moore mostrou para nós, expectadores, uma sociedade americana, vigorosamente, preparada para ser apática, que acabou ficando na história à mercê daquilo que, no passado foi tão bem incutido no comportamento coletivo, o fabuloso “American way of life”, e a idéia que todos poderiam assim viver, desde que, logicamente, se esforçassem individualmente.Ao assistir o filme do Moore, foi inevitável pensar no SUS, nossa política de universalização da saúde, e me lembrei de uma participação do João Pedro Stédile em um debate sobre políticas públicas, em que defendeu ferrenhamente o SUS, dizendo que na América do Sul poucos eram os países que davam conta de atender os casos de saúde, e o Brasil, com toda a dificuldade ainda tinha uma alternativa para dar ao pobre. Defendia um movimento nacional em prol da melhoria do atendimento da saúde pública e que essa luta deveria ser de todos. Entendo o SUS como uma política de redistribuição de renda, uma das formas onde todos contribuem para que todos possam ter acesso a um tratamento de saúde.Tenho consciência dos grandes problemas no atendimento, provocados principalmente pela falta de interesse das grandes corporações econômicas, para que uma política de saúde pública funcione bem. É bom não esquecer que saúde, nesse modo de produção, é uma mercadoria e muito cara.Assim, produções como SICKO, são daquelas raras oportunidades da gente, por meio da produção Hollywoodiana, se sentir motivado a debater um tema da magnitude da política de universalização da saúde. Valeu, sétima arte!
*Kelly Garcia é advogada, Mestre em Educação, militante de esquerda e, nas horas vagas, estilista da "Maria do Povo"





