sexta-feira, 28 de março de 2008

Uma noite na confraria das bruxas: lançamento do livro Gênero e Políticas Públicas


Um novo livro chega às livrarias. Traz todas as nuances do lilás e a força das palavras com o rigor científico necessário na abordagem da questão da mulher e políticas públicas. Apresenta uma coletânea de artigos que discutem desde violência, turismo e exploração sexual de crianças e adolescentes, sistema de cotas nas eleições até o direito das mulheres à posse da terra. As organizadoras da obra são Jacy Curado, professora da UCDB e Daniela Auad, professora da Universidade Federal de São Paulo. Duas grandes estudiosas, feministas e protagonistas de projetos e intervenções na área da igualdade de gênero, além de belas, inteligentes, sensíveis e senhoras à frente do nosso tempo. O livro é resultado do único curso de Pós-Graduação em Gênero e Políticas Públicas da América Latina e vai ser levado não só para as universidades do País, mas também da Europa, por ser inédito e por ser produzido com excelência acadêmica.
O lançamento do livro Gênero e Políticas Públicas hoje, à noite, foi emocionante. Primeiro porque reencontrei muitos amigos e amigas que, de uma forma ou de outra, têm uma relação afetiva com o livro. Depois porque, movida pela inspiração das bruxas e das deusas, com alma, paixão e útero, fiz a criação da capa, fazendo com que o lilás em movimento desse formas aos desafios femininos neste novo milênio. E lá, nas palavras, na organização do conhecimento, na leitura e na interpretação da realidade à luz da teoria, estavam companheiras que ousaram construir na história de Mato Grosso do Sul iniciativas, projetos e movimentos que pautaram a questão da mulher nas políticas públicas de Mato Grosso do Sul, especialmente a partir de 1999. Entre elas, Bárbara, Sandra, Marlene, Rosana (...e Maria Rosana, uma ausência percebida), que insurgem e ajudam a desmoronar o dualismo platônico mente/corpo, razão/emoção, que foi a base do pensamento ocidental cartesiano, fazendo a racionalização do exercício do poder expresso nas relações binárias senhor/escravo, homem/mulher, opressor/oprimido.
Enfim, nesta noite, participei de uma verdadeira confraria das bruxas contemporâneas, que deliciosamente serviram a poção mágica do conhecimento, nos dando força para prosseguir com a nossa rebeldia necessária, transgredindo aquilo que nos oprime, construindo e reconstruindo pensamentos, idéias e práticas.
E foi nessa confraria que conheci Daniela Auad. Que bruxa linda! Que mulher marcante pela inteligência e pela transgressão! E a noite não podia acabar de uma forma melhor. Ao sair do Museu das Nações Indígenas, dei de cara com uma grande reunião de capivaras, de todos os tamanhos e de todas as idades. Elas dormiam sob a luz calma da lua minguante, entre o verde escuro do Parque das Nações. Uma noite abençoada pelas deusas e bruxas.



Musa Híbrida - Caetano

quinta-feira, 27 de março de 2008

Cinema, Política e História



* Mario Doraci

Vende-se arte. A arte sempre teve um preço. O cinema, os quadros, as pinturas, as exposições plásticas, a música, a dança e o teatro. Assim vive a humanidade depois que o mundo é feito de gente. A arte nos enriquece, nos emociona fazendo rir ou chorar, nos passa algo sensível e amável. Aprendemos com ela. O cinema…por falar em cinema, os irmãos Auguste e Louis Lumière (1862-1954/1864-1948) descobriram esta magnífica forma de entrar no imaginário humano com sensações de aventura, de amor e de humor para recontar episódios da vida dos outros e do cotidiano. La vie des autres (A vida dos outros) mostra a forma de interrogar de uma escola dos alemães que impuseram o nazismo para conter o socialismo na Alemanha. O filme pega um caso particular do controle da vida alheia. E mais ou menos o mesmo método utilizado pela KGB na ex-URSS, pelo Chile com o DIVA (Departamento de Investigações da Vida Alheia) ou o SNI brasileiro que todos conhecem en passant, mas não sabem do que eles eram capazes. Na França há judeus para todo quanto é canto, no parlamento, no mundo literário e principalmente nos negócios…eles são os pais do capitalismo atual. Na Europa, apesar de 60 anos depois, a história do holocausto está presente - presente na imprensa, na vida dos descendentes e dos que conseguiram escapar andando somente de noite durante vários dias para alcançar a fronteira de países vizinhos. Há quatro anos o Ministério dos Transportes, ainda na era Jacques Chirac, quis inovar com uma exposição na avenida mais bela do mundo, o Champs Elysées, com os trens. Lógico, o TGV, as primeiras máquinas, o avanço de tudo que diz respeito ao progresso nesta área…mas como não podia deixar de faltar, um dos trens de carga, que serviu para enviar crianças, mulheres e famílias inteiras para Auschwitz, Sobibor, Birkenau, Monowitz, também estava lá…Aquele trem, se falasse, poderia contar quantas centenas de milhares de pessoas carregou pra câmara de gás com promessas alemãs de irem ao leste pra trabalhar… Entrada principal do principal campo de Auschwitz porque havia três Auschwitz. Entrada do inferno ou sala de espera do céu. O cinema francês ajuda a manter viva esta história também porque os judeus de hoje financiam qualquer projeto sério neste sentido, embora este filme tenha sido produzido por alemães. A comunidade internacional se comoveu a favor dos judeus, da pilhagem de seus bens, da falta de uma pátria, de um chão, de uma terra. E o Estado de Israel foi criado...mas nem tudo é luz na cidade Lumière, nem tudo resplende e brilha na moral dos homens. Hoje há um conflito entre os palestinos e o poder político e militar de Israel. Todos se comovem por Israel, talvez porque eles foram vítimas de um genocídio, porque é a Pátria citada por Jesus que também era judeu e foi morto por um complô dos judeus. A vida dos outros, daqueles que vivem na Cisjordânia, na faixa de Gaza, também é importante, mas a eles não se dá a mínima. Enfim, cinema, arte e política, por mais que queiram se manter desligadas, estão unidas pelo cordão financeiro do capital e da historia.

* Mario Doraci é jornalista sul-matogrossense, Mestre em Ciências Políticas da Comunicação, doutorando em Ciências Políticas e Sociologia, em Paris.
Rosa de Hiroshima - Ney Mato Grosso

quarta-feira, 26 de março de 2008

Lua Cheia, Dalai Lama e a paz necessária no Tibet, aqui e em mim


Dalai Lama e lua cheia. Duas referências de paz para a minha mente tão inquieta. Duas fontes de luz que acalmaram as minhas noites na semana passada. A lua cheia, grávida de amor, me fez parar o carro, respirar fundo, sentir o silêncio das estrelas e agradecer aos deuses e às deusas por aquele momento. Dalai Lama me encheu de forças pela sua capacidade de mostrar que paz não é ausência de conflito e que a insurgência também é sabedoria. A sua postura na defesa da autonomia do povo tibetano é íntegra, sábia e profética.
O desejo de experimentar essa paz silenciosa tem me acompanhado nas últimas semanas. Tenho tentado ficar menos tempo diante do computador, apenas o necessário que a minha profissão exige e que a minha alma necessita para se alimentar do amor, insurgência e conhecimento dos meus amigos, dos sábios, dos poetas e dos artistas. Confesso que o ciberespaço, as redes e as novas tecnologias me atraem de forma absurda. Por isso, tenho me disciplinado abrir menos no orkut e os e-mails pessoais. Começo a pensar na possibilidade de dedicar uma parte do meu tempo a retomada de algum tipo de militância, como fiz durante toda a minha vida. Porém, agora, não mais num partido político, mas em algum movimento que consiga reacender e manter viva a minha esperança teimosa. Tenho me esforçado a reaprender a ver beleza e sentido nas pequenas coisas e a experimentar por mais tempo a felicidade, que sempre me escapa das mãos e do coração.
Isso ficou tão vivo e latente no domingo, depois que assisti ao filme Antes de Partir, que retrata a essência da dialética humana: vida-morte-renascer. Um filme que me fez sair do cinema lembrando do que afirma Fernando Pessoa: "Há um tempo em que é preciso abandonar as
roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."
Esse sentido da vida é abordado com maestria pelo Chico Alencar, no texto que posto abaixo. Um texto que me deu uma boa chocalhada.


PÁSCOA, UM MOMENTO DE REFLEXÃO!
* por Chico Alencar


Semana Santa é provocação à meditação sobre o sentido da existência. Por isso tem um valor universal - imanente e transcendente - que ultrapassa os limites das instituições religiosas cristãs. Mas o próprio cristianismo dá uma contribuição perene para a caminhada humana no planeta, mesmo para aqueles que não consideram o profeta da Galiléia, filho de Maria e José, como encarnação de Deus.A dialética vida-morte-ressurreição está presente a todo momento em nossa trajetória. Perceber, como pede o poeta Hermínio Bello de Carvalho, que "a vida não é só isso que se vê/ é um pouco mais/ que os olhos não conseguem perceber/ as mãos não ousam tocar/ os pés recusam pisar", é dar uma saudável dimensão sagrada à materialidade humana. Somos seres em formação, em processo de humanização, feitos de ensaios e erros, de lama e luz.Vida, "sempre desejada por mais que esteja errada" (Gonzaguinha), é sopro de beleza. É o bem maior que se recebe. Mas ela é necessariamente gregária, social. Nosso destino é ser: ser-com-os-outros.Morte é a negação da vida. O maior pecado social hoje, é o egoísmo produzido em série. O sistema capitalista move-se pelo individualismo e pela competição. Nele, os gestos fraternos e solidários valem bem pouco. Reproduzo aqui um trecho de magistral crônica de Arnaldo Bloch, (O Globo, 26/01/2008) em que comentava o excelente filme "A culpa é do Fidel": "No Brasil, depois do fiasco moral da experiência petista, as direitas espumantes, em reação violenta, mergulham como urubus em carniças, em qualquer discurso que pregue algum tipo de consciência distributiva, em qualquer ideal que não seja o de submissão rastejante ao mercado.Ao mesmo tempo, o culto à experiência individual deslocada paira acima de qualquer integração fora do modelo competitivo, do jogo, do paredão, do Orkut, das sondagens, dos percentuais que tudo fingem dizer sobre tudo, das verdades determinadas em tempo real e totemizadas para serem deletadas logo mais, pois nada dizem, nada além valem do gozo aguado/valor agregado no pote global do entretenimento.Espírito de grupo, hoje - com exceção de parcas experiências que nascem espontaneamente da sociedade civil -, só vale e funciona mesmo quando é lobby empresarial ou religioso, formação de quadrilha, marketing de rede. Ou então aquelas iniciativas motivacionais de RH pós-nipônicas que invadem as empresas e incutem na cabeça do funcionariado a idéia de que ele vive, naquela organização, algum tipo de processo místico de crescimento pessoal através da força coletiva, em que a meta alcançada corresponde quase a uma passagem de casta espiritual".Cremos na ressurreição, na Páscoa, na passagem da morte para a vida, na teimosia da utopia, na força revolucionária do Amor, numa outra Humanidade possível.O ovo, seu símbolo, "guarda um sol ocluso: o que vai viver espera" (Adélia Prado).Uma Páscoa de superação de trevas e vida renovada na esperança e na solidariedade para todos.

* Chico Alencar é professor, historiador e deputado federal do PSol/RJ
Enya - May it be

terça-feira, 25 de março de 2008

Zé Dirceu derruba a censura contra a Maria-Sem-Vergonha

Foto: Portal Vermelho

Gente, o gatão do Zé Dirceu derrubou a censura. A minha amiga Miti descobriu e eu fui lá conferir. Os posts da Maria-sem-vergonha foram publicados hoje mesmo no blog do Zé, inteirinhos, até com os erros de digitação, com um atraso de "apenas" 36 horas. A Maria está podendo, está toda, toda...Reclamar, espernear, falar e botar a boca no trombone, às vezes, funciona.
Na polêmica, várias amigas também fizeram coro aos elogios da Maria. Apenas um tucanóide contestou e reclamou. A Miti, com toda razão, lembrou que o bom mesmo é o Chico Alencar (que eu amo e admiro de paixão). O restante reafirmou que o caramada é gato. A Kelly, a mais sapeca, chegou a dizer: "Também acho aquele homem um gato!!! Dígno de ser devorado, tal Caetano ao Cappri". hehehehehehe! Hoje, isso aqui virou o maior coreto. É, podem falar o que quiser, mas que ele é, É MESMO. Quem desejar conhecer o espaço virtual do Zé Dirceu, o caminho é este:http://www.zedirceu.com.br/ E se o comentário com críticas não for publicado, faça como a Maria: reclame.

Mais Cazuza - Exagerado
Hoje, acordei e vou dormir ouvindo Cazuza. Adoro a música "Exagerado". A minha alma é assim: exagerada, jogada a seus pés com mil rosas roubadas.

O Clip acima é parte do filme Cazuza - Eu preciso dizer que te amo

Barão Vermelho - Eclipse Oculto

segunda-feira, 24 de março de 2008

Maria-sem-vergonha censurada pelo Zé Dirceu


Gente, ontem, pela primeira vez, a Maria-sem-vergonha foi visitar o blog do Zé Dirceu. É. O Zé Dirceu mesmo. Foi lá de coração aberto para ler as opiniões do Zé sobre o Brasil. Não adianta torcer o nariz. A Maria-sem-vergonha acha o Zé um gato, ou melhor, um gatão, charmoso (só não gosta do sotaque de caipira, mas daqueles cabelos grisalhos...hum! E ele de óculos escuros. Nossa! ). Espere aí, gente, ninguém pode negar que o cara é muito inteligente, determinado, corajoso, arrojado e foi um lutador (tá certo que comandou o PT com mão de ferro, chegou no Palácio do Planalto já picado pela mosca azul, aliás todo mundo deveria ler o livro A Mosca Azul, do frei Betto)..me lembro dele sempre nessa foto clássica do movimento estudantil...movimento estudantil me lembra sempre revolução, mudança, transformação...me lembro do Henfil e da retomada da UNE com a nossa chapa “Pra sair dessa maré”.., mas voltando ao Zé Dirceu e à Maria-sem-vergonha, ela imaginou que iria chegar lá e ver um blog no estilo dos blogs dos seres normais. Primeiro engano. Lá estava o blog enquadrado, engessado num site. Claro, né, Maria-sem-vergonha? Ele é o Zé Dirceu, o homem mais forte do governo Lula até aquela merda toda acontecer. E que merda! Zé Dirceu é Zé Dirceu (gato demais). Mesmo, assim, a Maria-sem-vergonha deixou a timidez de lado, leu os posts e, atrevida do jeito que é, decidiu deixar um comentário para o Zé. No início ficou na dúvida: será que o Zé lê o que deixam escrito para ele? Será que é ele mesmo que administra o blog ou será que são os assessores, na maioria das vezes puxa-sacos que não gostam de ver o chefe chateado? Acho um porre puxa-saco, porre e brega. Na dúvida, a nossa Maria ultrapassou o sinal, claro, e deixou um comentário sobre a Reforma Tributária...um post lindo, palavras bonitas, sem xingamento, alto nível...A Maria-sem-vergonha até se sentiu uma intelectual, discutindo cobrança do ICMS no destino, propondo uma maior taxação dos lucros, principalmente, do capital financeiro...pobrezita, chegou a propor até a desoneração do consumo, afinal, no Brasil, quem mais paga imposto é pobre. Maria-sem-vergonha dormiu radiante, mas eis que hoje ao voltar ao blog do Zé: que frustração! O seu comentário não estava lá, não foi para o ar. Ficou pensando: "putz! Será censura? " Não, Maria, foi só um descuido do Zé...também você foi logo falando de igual para igual, não derramou elogios, chamou até ele de Zé...Você, heim!
Maria, desavergonhadamente, foi lá e deixou um outro post. Desta vez, primeiro elogiou a política externa do governo Lula e, depois, foi logo reclamando de dedo do tratamento dado a ela pelo Zé... e ainda convidou-o a visitá-la aqui...Até se atreveu a falar que em blog o que vale é a interação criativa, a diversidade, a pluralidade, o encontro das idéias ora divergentes, ora convergentes...Essa Maria! Ela se acha...ou será que é o Zé que se acha??? É, o Zé é o Zé...um gatão, bem felino.
Ideologia - Cazuza

A Vida dos Outros: o cinema no olhar de quem atua nos palcos

Foto:
ADELIAS por J. Ravedutti
Projeto Funarte
Peça dirigida por Nill Amaral


* Por Nill Amaral


Um ministro da Alemanha Oriental ordena que o maior dramaturgo do país seja vigiado pelo serviço secreto, apesar de nada haver contra ele. Num primeiro momento, parece que estamos diante de um filme político, frio, lento e cansativo. A Vida dos Outros não é (apenas) político, não é frio, tão pouco cansativo, nada disso. O filme “é mais que um filme”. Aos poucos, se percebe que o grande trunfo do filme, está na narrativa, poderia se dizer “fria”, lenta, com cores que revelam as camadas de cada frase dita e burilada pelo diretor, mérito dele, com certeza. Na realidade, o cineasta utiliza os primeiros minutos da ação para jogar o espectador no sombrio mundo da ausência total de liberdade. Tudo é escuro, mecânico, quase sem sentimentos. Deste universo cinzento e metálico, emerge a depressiva figura do capitão Gerd, agente especial da polícia secreta da Alemanha Oriental que tem como única finalidade servir cegamente ao seu totalitário país. Seu rosto é impassível, sua fala é monocórdica, seu apartamento é de uma tristeza estéril. Gerd desafoga as tensões contratando uma prostituta tão mecânica e friamente profissional quanto ele. Do outro lado da vida, está Georg, um homem das artes, diretor de teatro apaixonado pela namorada Christa , que tem a rara habilidade de se equilibrar habilmente entre a liberdade dos palcos e a opressão da ditadura. O que une estes homens tão diferentes e de nomes tão parecidos é um punhado de escutas clandestinas instaladas no apartamento de Georg. Quanto mais Gerd ouve e percebe a vida de Georg, mais ele mergulha num inesperado mar de sensações antes impensadas. Georg age como instrumento modificador de Gerd, mesmo sem ter a mínima consciência disso. Os fios que unem microfones e fones de ouvido desta escuta tão vil acabam funcionando com um cordão umbilical entre os personagens.
A pergunta que fiz ao sair do cinema será que o personagem foi se transformando a partir da leitura de um poema de Brecht? Eu mesmo respondi, sim, sim, foi essa a transformação visilmente estampada na trajetória desse personagem.




* Nill Amaral é ator, dramaturgo e diretor de teatro. Atuou nos palcos do Rio de Janeiro e São Paulo. Em Campo Grande dirigiu Adélia, um projeto desenvolvido no Presídio Feminino, e No Gosto Doce e Amargo das Coisas de Que Somos Feitos, com base na Obra de Clarice Lispector.

domingo, 23 de março de 2008

Encontros na poesia

Foto: Malu
Caminito - La Boca - Argentina
Registro da viagem de Malu, Natal e
Macarrão a Argentina
"...caminito amigo,
yo también me voy...
Caminito que todas
las tardes feliz
recorría cantando mi amor..."


Existem pessoas que nos visitam e enchem o nosso coração de alegria. Aqui, no Maria-sem-vergonha tenho experimentado doces encontros. Hoje, foi a vez de Maristela Brunetto, uma jornalista especial que, agora, leva a sua competência para o mundo do Direito. Perde o Jornalismo, ganha a Justiça. Além da visita, Maristela me mandou poemas de sua autoria. Que bela surpresa! Palavras vão ganhando forma, presenças, ausências, sentimentos, poesia...

Maristela Brunetto

Porque você deixou se passar tanto tempo
Foi uma eternidade
Suficiente para tanto virar tão pouco
Seu rosto, seu olhar, seu sorriso forte
Agora são uma imagem disfusa, fora de foco
Seu cheiro se dissipou
Seu sabor não mora mais na minha boca
Suas mãos, seus toques
Uma sensação distante
Nossa confusão a dois, misturados,

conjugados em um só
Por tantas vezes
O que viramos? Chegamos a ser um Nós?
Hoje temos dois pronomes: eu, você
Não há nós.Tudo tão implacável
Restamos cada um para o seu lado.

Atilla József


E um outro encontro com a poesia neste domingo me fez feliz: Atilla József (1905-1937). Ele viveu apenas 32 anos, mas tempo suficiente para se tornar um dos mais importantes poetas húngaros do século XX. Filho de um operário romeno e de uma lavadeira, József conheceu cedo a dor da miséria e do abandono. O pai deixou a família quando ele tinha apenas três anos de idade. A sua mãe faleceu quando József estava com quatorze anos. Publicou o seu primeiro volume de poesia aos 17 na principal revista literária húngara, Nyagat. Aos 19 anos ingressou, na Universidade de Szeged para estudar literatura francesa e húngara, mas foi expulso no ano seguinte devido a publicação do poema “Com um Coração Puro” (“With a Pure Heart”). Depois da expulsão, parte para Viena, em seguida para Paris, onde é admitido na Sorbonne. Em 1927 volta a Budapest e passa a militar no clandestino Partido Comunista. Em face das suas críticas ao Partido, foi expulso do PC em 1930. Este acontecimento marca um período de crescente depressão. Apesar de vários períodos de tratamento Attila József atirou-se para baixo de um comboio no dia 3 de Dezembro de 1937.
(fonte: http://livrariapodoslivros.blogspot.com/2008/02/attila-jzsef.html)

Rato primitivo espalha praga entre nós:
pensamento impensado
Rói adentro todo o nosso alimento
e corre de um homem ao outro.
Por isso o beberrão ignora que ao afogar as mágoas em champanhe
engole em seco o insípido caldo
do pobre apavorado.

E já que a razão falha em exigir
direitos fecundos das nações
nova infância se levanta a incitar
as raças umas contra as outras.
A opressão grasna em esquadrões,
aterra no coração vivo, como em carniça -
e a miséria escorre pelo mundo todo,
tal qual a baba no rosto de idiotas.

tradução de Lucienne Scalso

BADI ASSAD - Ai Que Saudade D'ocê
Ela arrasa na voz, no violão, nos sons, nos tons...estupendo. Badi encanta Nova Iorque. Você precisa conhecê-la.