domingo, 23 de março de 2008

Encontros na poesia

Foto: Malu
Caminito - La Boca - Argentina
Registro da viagem de Malu, Natal e
Macarrão a Argentina
"...caminito amigo,
yo también me voy...
Caminito que todas
las tardes feliz
recorría cantando mi amor..."


Existem pessoas que nos visitam e enchem o nosso coração de alegria. Aqui, no Maria-sem-vergonha tenho experimentado doces encontros. Hoje, foi a vez de Maristela Brunetto, uma jornalista especial que, agora, leva a sua competência para o mundo do Direito. Perde o Jornalismo, ganha a Justiça. Além da visita, Maristela me mandou poemas de sua autoria. Que bela surpresa! Palavras vão ganhando forma, presenças, ausências, sentimentos, poesia...

Maristela Brunetto

Porque você deixou se passar tanto tempo
Foi uma eternidade
Suficiente para tanto virar tão pouco
Seu rosto, seu olhar, seu sorriso forte
Agora são uma imagem disfusa, fora de foco
Seu cheiro se dissipou
Seu sabor não mora mais na minha boca
Suas mãos, seus toques
Uma sensação distante
Nossa confusão a dois, misturados,

conjugados em um só
Por tantas vezes
O que viramos? Chegamos a ser um Nós?
Hoje temos dois pronomes: eu, você
Não há nós.Tudo tão implacável
Restamos cada um para o seu lado.

Atilla József


E um outro encontro com a poesia neste domingo me fez feliz: Atilla József (1905-1937). Ele viveu apenas 32 anos, mas tempo suficiente para se tornar um dos mais importantes poetas húngaros do século XX. Filho de um operário romeno e de uma lavadeira, József conheceu cedo a dor da miséria e do abandono. O pai deixou a família quando ele tinha apenas três anos de idade. A sua mãe faleceu quando József estava com quatorze anos. Publicou o seu primeiro volume de poesia aos 17 na principal revista literária húngara, Nyagat. Aos 19 anos ingressou, na Universidade de Szeged para estudar literatura francesa e húngara, mas foi expulso no ano seguinte devido a publicação do poema “Com um Coração Puro” (“With a Pure Heart”). Depois da expulsão, parte para Viena, em seguida para Paris, onde é admitido na Sorbonne. Em 1927 volta a Budapest e passa a militar no clandestino Partido Comunista. Em face das suas críticas ao Partido, foi expulso do PC em 1930. Este acontecimento marca um período de crescente depressão. Apesar de vários períodos de tratamento Attila József atirou-se para baixo de um comboio no dia 3 de Dezembro de 1937.
(fonte: http://livrariapodoslivros.blogspot.com/2008/02/attila-jzsef.html)

Rato primitivo espalha praga entre nós:
pensamento impensado
Rói adentro todo o nosso alimento
e corre de um homem ao outro.
Por isso o beberrão ignora que ao afogar as mágoas em champanhe
engole em seco o insípido caldo
do pobre apavorado.

E já que a razão falha em exigir
direitos fecundos das nações
nova infância se levanta a incitar
as raças umas contra as outras.
A opressão grasna em esquadrões,
aterra no coração vivo, como em carniça -
e a miséria escorre pelo mundo todo,
tal qual a baba no rosto de idiotas.

tradução de Lucienne Scalso

BADI ASSAD - Ai Que Saudade D'ocê
Ela arrasa na voz, no violão, nos sons, nos tons...estupendo. Badi encanta Nova Iorque. Você precisa conhecê-la.

sábado, 22 de março de 2008


Nova Coleção da Maria do Povo

Está linda, colorida, leve e solta a nova coleção da Maria do Povo. Estou encantada com os vestidos que, com fitas, cores e tecidos alternativos, vão deixar o outono mais tropical. As bolsas, então, surpreendem: bordados com rostos do Che Guevara, Nega Maluca e muitos detalhes com xadrez. Quando entro no ateliê da Kelly respiro criatividade, beleza e uma harmonia subversiva. Vale à pena conferir.

Filme: A vida o Outro

Ainda não fui ainda assistir a esse filme, mas confio na indicação do meu amigo Nill Amaral, diretor de teatro arrojado, movido por tesão, paixão e grande profissionalismo, que, em breve, estará novamente com seus espetáculos nos palcos de Campo Grande. Estarei neste fim de semana na platéia do Cine Cultura. Aliás, aquele cinema é muito confortável e tem uma ótima programação, mas infelizmente é pouco frequentado. É, fazer cultura na terra do boi não é fácil. Já os shows dos agroboys lotam.
Sinopse: Nos anos 80, quando a Alemanha ainda era dividida pelo Muro de Berlim, o bem-sucedido dramaturgo Georg Dreyman (Sebastian Koch) e sua companheira, a famosa atriz Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck), vivem em meio à elite intelectual da Alemanha Oriental. Quando o Ministro da Cultura (Thomas Thieme) interessa-se pela atriz, o agente do serviço secreto Wiesler (Ulrich Mühe) recebe a missão de observar o casal, passando a achar suas vidas e personalidades cada vez mais fascinantes.

Livro: Os melhores contos de Loucura

Todas as vezes que viajo, não coloco na bagagem os livros que estou lendo. Pratico um ritual há muito anos: adquirir um livro novo nas livrarias dos aeroportos ou nas livrarias das cidades que visito. Assim tenho a sensação de estar acompanhada de um novo amigo e, por isso, experimento toda magia do encanto, das descobertas, da conquista. Na última viagem ao Rio, comprei no Aeroporto Santos Dumont o livro Os melhores Contos de Loucura, organizado por Flavio Moreira da Costa. Ele traz uma seleção de contos (alguns inéditos) que apresentam a literatura como tema e a loucura como um fio condutor. Um encontro antológico que reúne Machado de Assis, Van Gogh, Luigi Pirandello, João do Rio, Antonin Artaud, Bukowski, entre outros. Na obra, você poderá experimentar sentimentos diversos e até alguns delírios, misturando risos, angústias, inquietudes, tristeza... Ah, a loucura humana! Em alguns casos, a loucura é tão viva na genialidade, tão necessária. Basta ver a obra de Van Gogh, Artaud.


Blog do Luis Nassif - Dossiê Veja

Não deixe de conhecer o blog do Luis Nassif e ler o dossiê sobre a revista Veja. É uma verdadeira aula sobre como esse periódico se transformou em algo bem abaixo de um panfleto, um exemplo de anti-jornalismo. “O maior fenômeno de anti-jornalismo dos últimos anos foi o que ocorreu com a revista Veja. Gradativamente, o maior semanário brasileiro foi se transformando em um pasquim sem compromisso com o jornalismo, recorrendo a ataques desqualificadores contra quem atravessasse seu caminho, envolvendo-se em guerras comerciais e aceitando que suas páginas e sites abrigassem matérias e colunas do mais puro esgoto jornalístico.” Luis Nassif

Para quem passou pelo Maria-Sem-vergonha e reclamou dos comentários que fizemos sobre a postura de Veja, a leitura do dossiê do Nassif é obrigatória. http://www.projetobr.com.br/web/blog/5


Música: Dueto - Chico Buarque e Paula Toller
Autoria: Chico Buarque

Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz
Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela
Está no seguro, pixaram no muro, mandei fazer um cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis
Consta nos Ovnis, no Pravda, na Vodca

Anjos e Judas desta Sexta-feira Santa

Foto: Sebastião Salgado
Hoje, Sexta-feira Santa, a memória me levou até a infância em Ivinhema. Dois acon-tecimentos marcavam esta data tão cristã, tão católica. Uma era a procissão com seus anjos e o Cristo na cruz. Sonhava em me vestir de anjo, com as asas brancas decoradas com papel crepom. Desde pequena, tenho uma curiosidade aguçada para desbravar e fazer descobertas não só o mundo dos humanos, mas também o mundo do “sagrado”, mas só consigo ir até o limite da nossa galáxia, a Via Láctea.
O outro acontecimento era a malhação de Judas no Sábado de Aleluia, um costume trazido pelos portugueses. Sempre ajudava o meu pai a construir o boneco a ser malhado, geralmente, confeccionávamos com cabeça de mamão e roupas velhas. Hoje, assistindo ao Jornal Nacional, essas duas imagens tão antagônicas – anjo e Judas – me apareceram simultaneamente, quando vi uma criança de oito meses ser enterrada num caixão branco, era um anjinho. Ela fora mais uma vítima do descaso brasileiro com a saúde pública. Vítima da dengue, a pequena e milhares de outros brasileiros, como o meu próprio filho fora no ano passado, pagam caro pela falta de seriedade no combate a uma epidemia característica de país subdesenvolvido. A dengue, a febre amarela e a leishimaniose são doenças que já tinham sido erradicadas, mas voltam com toda força não só por causa da crescente urbanização, do desmatamento, mas principalmente pela ineficiência das campanhas e ações preventivas, cujas verbas escassas acabam em outras contas. A morte pode ser anunciada não só pela picada do mosquito transmissor, mas também pela falta de atendimento nas unidades de saúde pública, sempre lotadas, sem número de médicos e profissionais de saúde suficientes. A morte do bebê, a dor e o lamento da sua mãe, o desespero de outros pais nas filas de atendimento nos remetem às chagas de milhões de brasileiros que carregam as cruzes das injustiças e das desigualdades. Fiquei pensando na lista de judas que deveríamos malhar neste Sábado de Aleluia.
E por falar em anjos, deixo abaixo um trecho do filme Anjos do Sol, de Rudi Lagemann, que aborda a prostituição e a exploração sexual de crianças e adolescentes, uma realidade vergonhosa que ainda rouba os sonhos e os futuros dos nossos meninos e meninas. E ainda tem gente que está preocupada em escrever sobre a jaqueta do presidente da República.
Filme Anjos do Sol

quarta-feira, 19 de março de 2008

Um Lugar na Platéia no Cine Cultura - vale a pena você procurar o seu


Para quem gosta de cinema. Para quem tem paixão por Paris, mesmo sem conhecê-la como é o meu caso. Para quem só de ouvir os nomes de Sartre, Simone de Beauvoir, Truffaut, Depardieu, Binoche fica com os olhos brilhando, não pode deixar de escolher o seu lugar no Cine Cultura e assistir a película francesa, de Danièle Thompson, Um Lugar na Platéia. Esses ilustres seres humanos não são personagens do filme, mas são recorrentes as referências a eles, obviamente mantendo uma necessária distância, a exceção da abordagem que faz de Sartre e Beauvoir. Estes ganharam mais destaques e são mostrados de uma forma mais humana, tirando a aura de casal perfeito de intelectuais, exemplos para muitas gerações.
Um lugar na platéia não provoca cargas de adrenalina, não gera muitas gargalhadas, não faz as lágrimas descerem e nem faz a gente sair do cinema repensando profundamente a nossa existência. É um filme bonito, uma comédia-romântica, que, com bom-humor, coloca algumas questões para serem refletidas, principalmente, a dicotomia entre sucesso e felicidade, morte e vida, equilíbrio e loucura. Mas isso sem choques e sem pancadas no estômago. Tudo é muito sereno. Um certo glamour está presente na película, principalmente, no ambiente onde se desenrola a história: a Avenue Montaigne da Paris Cultural, com seus cinemas, teatros, óperas, artes plásticas e televisão. Esse glamour ganha mais luminosidade numa das poucas panorâmicas aéreas da Cidade Luz.
O filme se centra na história de Jéssica, uma jovem interiorana que cuida de sua avó que, no passado, trabalhou no luxuoso Hotel Ritz. A garota chega a Paris e consegue um emprego como garçonete num café na Avenue Montaigne, vizinho a um teatro, uma sala de concertos, uma casa de leilões e o próprio Ritz. Jéssica passa a conviver num cenário de arte e artistas. Todos os protagonistas têm em comum uma data, na qual, simultaneamente, estrearão uma peça e um concerto e será realizado um importante leilão de arte. Com sutileza, alegria e uma certa ingenuidade, a menina consegue ser mais do espectadora dos dramas desses protagonistas:um concertista em crise que deseja mudar de vida e levar a música para a população em geral, para os doentes, para os mais pobres - desejo que esbarra na vida burguesa da sua esposa; uma atriz, estrela de uma novela, que quer desesperadamente um papel no filme que vai narrar a história de Simone de Beauvoir e Sartre; um colecionador de arte que está deixando para trás o legado de uma vida e seu crítico filho incapaz de compreendê-lo; um diretor de Hollywood e outros personagens com suas ambições, egos, frustrações e desejos. A diretora constrói uma colcha de retalhos de personagens que se cruzam, interagem e descobrem outros caminhos.

Um Lugar na Platéia me fez sair do cinema melhor do que entrei. Vale a pena você encontrar o seu lugar na platéia do Cine Cultura.

Piaf - Non, Je Ne Regrette Rien

segunda-feira, 17 de março de 2008

Menino deus, menino índio - filho do sol, luz do arco-íris


Um menino índio fez a dança da chicha no meu coração. Encarnou um ritual de amor sob o arco-íris, incorporando o elo entre o humano e o divino, entre o tangível e o intangível, entre o real e o sonho, anunciando a chegada de uma divindidade. Um pouco de Eros, o deus grego do amor, filho de Zeus e de Afrodite, a deusa que me guia. Um menino deus, com um pé no Olimpo e outro aqui, no mundo dos homens e das mulheres, que lança nos corações humanos flechas de sensibilidade, de encanto, de esperanças libertárias. Menino sol, menino luz, farol a indicar caminhos nas noites sem lua cheia, nas noites sem poesias, sem tertúlias. Menino anjo, mensageiro do sonho de justiça e igualdade, guardião de um outro mundo possível, de um futuro de beleza para humanidade, mesmo que uns ainda teimem em negá-lo.
Menino índio, menino deus, menino sol, menino da cor do arco-íris, menino Dídio, MAIAKÓVSKI para você (Feliz aniversário!)


Estrela - Maikóvski
Escutai! Se as estrelas se acendem
será por que alguém precisa delas?
Por que alguém as quer lá em cima?
Será que alguém por elas clama,
por essas cuspidelas de pérolas?
Ei-lo aqui, pois, sufocado, ao meio-dia,
no coração dos turbilhões de poeira;
ei-lo, pois, que corre para o bom Deus,
temendo chegar atrasado,
e que lhe beija chorando a mão fibrosa.Implora!
Precisa absolutamente
duma estrela lá no alto!Jura!
Que não poderia mais suportar
essa tortura de um céu sem estrelas!
Depois vai-se embora,
atormentado, mas bancando o gaiato
e diz a alguém que passa:
"Muito bem! Assim está melhor agora, não é?
Não tens mais medo, hein?"Escutai, pois!
Se as estrelas se acendem
é porque alguém precisa delas.
É porque, em verdade, é indispensável
que sobre todos os tetos, cada noite,
uma única estrela, pelo menos, se alumie.

O Amor - Maiakóvski

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos, apareça
numa alameda do zoo, sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela, que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século ultrapassará o exame de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado seremos pagos
em enumeráveis noites de estrelas. Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano! Ressuscita-me,
nem que seja só por isso! Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo de casamentos,
concupiscência, salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira. Para viver
livre dos nichos das casa.
Para que doravante
a família seja o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe, pelo menos a Terra.
(ou a mãe seja o Universo e o pai a Terra ou sejamos todos Terra e Universo - Maria-sem-vergonha pede licença ao poeta)

Menino Deus - Caetano Veloso

Por que Fidel e Cuba incomodam tanto?

Estou meio boquiaberta. É. Sabe aquela expressão de “OH!” permanente no rosto? Nunca imaginei que o texto sobre Fidel e a Veja, de autoria da minha dulcíssima amiga Kelli Garcia, fosse dar tanta repercussão e reação aqui no Maria-sem-vergonha. Por que Fidel e Cuba incomodam tanto? Deixo a resposta para Emir Sader na entrevista que publico abaixo. Alguns comentários aqui no coreto virtual beiraram a intolerância, chegando a afirmar que o blog está criando um bando de fundamentalistas e recomendando “usar o nosso tempo dedicado ao ócio, para compartilhar o conhecimento específico em Economia Doméstica, Esportes, Justiça etc com vizinhos, associações de moradores, órgãos de representação de classe e afins”. Digo a esse visitante que ele não nos conhece, não nos conhece mesmo. E, por isso, a sua ignorância será perdoada (ignorância no bom sentido: estado de quem não tem conhecimento de alguma coisa). Ao comentário dessa pessoa respondi: “temos uma história de atuação em defesa dos direitos humanos, especialmente, em defesa daqueles e daquelas que a sociedade capitalista joga literalmente no lixo. Uma coisa que aprendi desde cedo é enxergar o que está diante do meu nariz, sou filha de um retirante nordestino, um sobrevivente da fome e da cerca...sei muito bem o que é ser filha da miséria, por isso olho o mundo a partir da minha aldeia...Este blog existe para falar sobre tudo, basta você olhar os textos postados...falo da minha aldeia e falo de outras aldeias, inclusive sobre Cuba, isla hermosa, ...aqui nada é proibido...volte sempre que desejar...”
Acrescento: É, claro, que esse “aqui nada é probido” tem limites e tem que ter mesmo. Nunca será publicado um texto em defesa do machismo, do sexismo, do capitalismo, do etnocentrismo, do racismo, da pena de morte, da homofobia, da misoginia, do fundamentalismo, da ditadura da economia de mercado, da ditadura da beleza, das desigualdades sociais e econômicas, da exploração sexual de crianças e adolescentes e muito menos do jornalismo abaixo de panfleto praticado, por exemplo, pela Revista Veja. Acrescento mais:
E quanto ao tempo que dedicamos a escrever, brindar, contestar, protestar, amar e se deliciar com poesias, história, arte e cultura, isso é um privilégio nosso, um privilégio de quem sabe experimentar e democratizar as novas tecnologias, acreditando, sim, que o ciberespaço é um espaço que vai além da interação social e que pode, inclusive, ajudar na revolução das idéias. Sinto muito se algumas pessoas ainda têm um pensamento linear, do início do século passado. Posso usar minhas madrugadas para escrever e fazer o quiser, afinal enquanto muitos ficavam em casa sonhando em obter sucesso com suas carreiras ou em se tornar fazendeiro ou ganhar na mega-sena ou em comprar o carro do ano, eu usava meus dias, noites e madrugadas na luta pela democracia, não por essa democracia burguesa, mas por uma democracia plena: social, política, econômica e cultural.
Quanto à Cuba, Fidel e o povo Cubano sempre terão o nosso respeito, admiração e destaque. Fica aqui uma entrevista de Emir Sader, doutor em Ciências Políticas, na qual fala sobre a renúncia de Fidel e sobre o destino de Cuba - Instituto Humanitas Unisinos (IHU). Atualmente, Sader atua como coordenador do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais e é professor da Universidade de Oxford e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).


IHU On-Line – Pensando na perspectiva da esquerda latino-americana e mundial, quais são os aspectos do pensamento de Fidel que o senhor considera ainda hoje pertinentes?

Emir Sader – Pode-se falar de uma esquerda latino-americana de antes e depois de Cuba e Fidel. Ele introduziu a questão do socialismo no coração da América Latina, na vigilância dos Estados Unidos. Também introduziu questões fundamentais, como a de que apenas uma sociedade não fundada no mercado pode terminar com o analfabetismo, universalizar direitos de saúde, de educação e culturais para toda a população. Isso tudo fazendo com que um pequeno país sem grandes produtos de exportação, com baixo valor de carteira no mercado internacional, pudesse ter a projeção que teve. Essa é a posição interna. Cuba acredita que deve seguir sendo o país mais solidário do mundo, uma referência em saúde no mundo todo e o que tem mais médicos trabalhando ativamente fora do país. Isso para não falar na escola latino-americana de Medicina, que está formando as primeiras gerações de médicos pobres, provenientes inclusive do Brasil. Possui também a Operação Milagre, que é a recuperação de milhões de latino-americanos de forma gratuita. A sociedade cubana tem um grande espírito de solidariedade totalmente contraditório com o espírito mercantil que o capitalismo difunde pelo mundo afora. Então, o Fidel é um marco da história da América Latina, da história da periferia do capitalismo.

IHU On-Line – O que significa a renúncia de Fidel para a América Latina?


Emir Sader – Na verdade, a renúncia veio a partir de uma transição, pois o Fidel foi deixando aos poucos de assumir funções. A renúncia foi só uma formalização. Significa que a América Latina hoje não pode preferir Cuba. Na verdade, ela tem outros regimes que estão construindo sociedades alternativas, como Equador, Bolívia, Venezuela, e que estão na esteira, no caminho que foi plantado por Fidel. Então, a atualização dele hoje é a atualização presente, por exemplo, na ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas), em que se constrói a experiência mais avançada, aquela que o Fórum Social Mundial pregava: a de um comércio justo, em que cada país oferece o que tem e recebe o que necessita, e assim por diante. Tudo isso feito a partir desse espírito de solidariedade que contém. Então, o Fidel se retira, mas a presença do que ele sonhou é constante, ou seja, continua contemporâneo na América Latina. Esse é um final de carreira digno de quem construiu uma trajetória extraordinária.

IHU On-Line – Podemos esperar algum tipo de mudança na forma de Raul Castro conduzir a política cubana e as articulações com os outros países da América Latina?

Emir Sader – Nada significativo.

IHU On-Line – A renúncia de Fidel tem relação com a nova estrutura da esquerda na América Latina, que está sendo chamada de Nova Esquerda?

Emir Sader – Não, não tem nenhuma relação. A história específica da esquerda na América Latina não tem ligação com a renúncia de Fidel. A renúncia de Fidel representa a continuidade do sistema político mais além do seu grande líder fundador, não mais do que isso. Fidel já instruiu aqueles que irão dirigir a Revolução Cubana.

IHU On-Line – De que forma a renúncia de Fidel pode influenciar a esquerda atual que está se formando na América Latina?

Emir Sader – Fidel está fora da presidência há um ano e meio, então não tem nada para influenciar agora. O que tinha para influenciar já influenciou. O que ele sonhou já está tendo continuidade em outros governos.

IHU On-Line – Então, Cuba continua sendo um modelo socialista para a América Latina?

Emir Sader – Uma referência, não um modelo. Estão sendo construídos diversos modelos novos influenciados por Cuba, por isso é uma referência.

IHU On-Line – Qual é a sua opinião sobre a declaração de Bush de que a renúncia de Fidel deva ser um começo para a democracia cubana?

Emir Sader – O fim do governo Bush pode ser o começo para a democratização dos Estados Unidos. Eu não tenho previsão para as eleições, até porque não sou especialista, mas creio que todos os candidatos, de alguma maneira, rejeitam o governo Bush. Bush sairá do poder sozinho, como ele mesmo disse, só ele e seu cachorro, o que não é o caso do Fidel. Este sai com o apoio do povo cubano.

Silvio Rodriguez canta Fidel

Será que Silvio, Pablo Milanes e tantos outros artistas cubanos são assim tão imbecis, subservientes, medrosos como afirmam os que atribuem ao povo cubano a submissão ao regime por medo?


sexta-feira, 14 de março de 2008

Hoje é Dia de Poesia



14 de março – Dia Nacional da Poesia,
dia em que nasceu o poeta do Romantismo, Castro Alves

Palavras que rasgam a alma como se fossem navalhas afiadas. Desnudam a noite. Cortam sentimentos. Fazem o vazio da solidão transbordar. Provocam gozos múltiplos com metáforas. Possibilitam a dança de sentimentos desconexos. Alimentam espíritos famintos de vôos livres. Fazem um sapateado de luz com o brilho das estrelas. Despertam desejos oníricos. Levam a lucidez onde a loucura contagia corpos desvalidos. POESIA....P O E S I A... POESIA ...Não dá para ousar entrar no labirinto das palavras percorrido pelos poetas sem citar Borges: “Há versos, é claro, que são belos e sem sentido. Porém ainda assim têm um sentido – não para a razão, mas para a imaginação (...). E a vida, tenho certeza, é feita de poesia. A poesia não é alheia, como veremos, está logo ali, à espreita. Pode saltar sobre nós a qualquer instante”.
E ela salta... e, hoje, Dia Nacional da Poesia, ela saltará ainda mais sobre mim, sobre você, sobre nós, experimentando o gozo anunciado por Alice Ruiz: “quem ri quando goza é poesia até quando é prosa”.

BYRON

Estâncias para Música

Alegria não há que o mundo dê, como a que tira.
Quando, do pensamento de antes, a paixão expira
Na triste decadência do sentir;
Não é na jovem face apenas o rubor
Que esmaia rápido, porém do pensamento a flor
Vai-se antes de que a própria juventude possa ir.
Alguns cuja alma bóia no naufrágio da ventura

Aos escolhos da culpa ou mar do excesso são levados;
O ímã da rota foi-se, ou só e em vão aponta a obscura
Praia que nunca atingirão os panos lacerados.
Então, frio mortal da alma, como a noite desce;

Não sente ela a dor de outrem, nem a sua ousa sonhar;
toda a fonte do pranto, o frio a veio enregelar;
Brilham ainda os olhos: é o gelo que aparece.
Dos lábios flua o espírito, e a alegria o peito invada,
Na meia-noite já sem esperança de repouso:
É como na hera em torno de uma torre já arruinada,
Verde por fora, e fresca, mas por baixo cinza anoso.
Pudesse eu me sentir ou ser como em horas passadas,

Ou como outrora sobre cenas idas chorar tanto;
Parecem doces no deserto as fontes, se salgadas:
No ermo da vida assim seria para mim o pranto.

Baudelaire
Uma Passante


A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;
Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.
Brilho... e a noite depois! - Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?
Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!

Augusto dos Anjos
Pecadora

Tinha no olhar cetíneo, aveludado,
A chama cruel que arrasta os corações,
Os seios rijos eram dois brasões
Onde fulgia o simb’lo do Pecado.
Bela, divina, o porte emoldurado
No mármore sublime dos contornos,
Os seios brancos, palpitantes, mornos,
Dançavam-lhe no colo perfumado.
No entanto, esta mulher de grã beleza,
Moldada pela mão da Natureza,
Tornou-se a pecadora vil.
Do fado,
Do destino fatal, presa, morria
Uma noite entre as vascas da agonia
Tendo no corpo o verme do pecado!


Maria Tereza Horta

Minha senhora de mim

Comigo me desavim
minha senhora
de mim
sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço
Comigo me desavim
minha senhora
de mim
nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços
Comigo me desavim
minha senhora
de mim
recusando o que é desfeito
no interior do meu peito

Castro Alves
Beijo eterno


Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue.
Acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!
Fora, repouse em paz
Dormindo em calmo sono a calma natureza,
Ou se debata, das tormentas presa,
Beija inda mais!
E, enquanto o brando calor
Sinto em meu peito de teu seio,
Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,
Com o mesmo ardente amor!...
Diz tua boca: "Vem!

"Inda mais! diz a minha, a soluçar... Exclama
Todo o meu corpo que o teu corpo chama:
"Morde também!"

Ai! morde! que doce é a dor
Que me entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! morde mais! que eu morra de ventura,
Morto por teu amor!
Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue:

acalma-o com teu beijo!
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!


Pablo Neruda
Gosto quando te calas

Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.
Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.
Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.
Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.
Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.

Victor Barone

Minha língua fundida na tua,
na sagrada mistura,
absorve, segura,
teus olhos e os meus.
As mãos,
enlaçadas em nó
apertam, profanas,
bocados de nós.
Tua essência me escorre na pele.
Despejo palavras em teu ventre.

Fernado Pessoa
Alberto Caeiro

Da minha aldeia

Da minha aldeia vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.

Lya Luft
Todos esses anjos

Todos esses Anjos que à noite
agitam cortinas e sussurram frases
que temes entender:se te tomarem nos braços
se te beijarem na boca,se te entrarem no corpo,
não te darão certeza de que morrer, viver,
são igualmente suaves e difíceis
loucos e sensatos, e urgentíssimos?
Poderás enfim amar, rendendo-te aquilo
que te aflora com suas asas,
te chama com suas vozes,
te vara constantemente com essa luz,
essa dor.

Olavo Bilac
Delírio

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!
Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.
No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci....