Existem pessoas que nos visitam e enchem o nosso coração de alegria. Aqui, no Maria-sem-vergonha tenho experimentado doces encontros. Hoje, foi a vez de Maristela Brunetto, uma jornalista especial que, agora, leva a sua competência para o mundo do Direito. Perde o Jornalismo, ganha a Justiça. Além da visita, Maristela me mandou poemas de sua autoria. Que bela surpresa! Palavras vão ganhando forma, presenças, ausências, sentimentos, poesia...
Maristela Brunetto
Porque você deixou se passar tanto tempo
Foi uma eternidade
Suficiente para tanto virar tão pouco
Seu rosto, seu olhar, seu sorriso forte
Agora são uma imagem disfusa, fora de foco
Seu cheiro se dissipou
Seu sabor não mora mais na minha boca
Suas mãos, seus toques
Uma sensação distante
Nossa confusão a dois, misturados,
conjugados em um só
Por tantas vezes
O que viramos? Chegamos a ser um Nós?
Hoje temos dois pronomes: eu, você
Não há nós.Tudo tão implacável
Restamos cada um para o seu lado.
Atilla József
E um outro encontro com a poesia neste domingo me fez feliz: Atilla József (1905-1937). Ele viveu apenas 32 anos, mas tempo suficiente para se tornar um dos mais importantes poetas húngaros do século XX. Filho de um operário romeno e de uma lavadeira, József conheceu cedo a dor da miséria e do abandono. O pai deixou a família quando ele tinha apenas três anos de idade. A sua mãe faleceu quando József estava com quatorze anos. Publicou o seu primeiro volume de poesia aos 17 na principal revista literária húngara, Nyagat. Aos 19 anos ingressou, na Universidade de Szeged para estudar literatura francesa e húngara, mas foi expulso no ano seguinte devido a publicação do poema “Com um Coração Puro” (“With a Pure Heart”). Depois da expulsão, parte para Viena, em seguida para Paris, onde é admitido na Sorbonne. Em 1927 volta a Budapest e passa a militar no clandestino Partido Comunista. Em face das suas críticas ao Partido, foi expulso do PC em 1930. Este acontecimento marca um período de crescente depressão. Apesar de vários períodos de tratamento Attila József atirou-se para baixo de um comboio no dia 3 de Dezembro de 1937.
Rato primitivo espalha praga entre nós:
pensamento impensado
Rói adentro todo o nosso alimento
e corre de um homem ao outro.
Por isso o beberrão ignora que ao afogar as mágoas em champanhe
engole em seco o insípido caldo
do pobre apavorado.
E já que a razão falha em exigir
direitos fecundos das nações
nova infância se levanta a incitar
as raças umas contra as outras.
A opressão grasna em esquadrões,
aterra no coração vivo, como em carniça -
e a miséria escorre pelo mundo todo,
tal qual a baba no rosto de idiotas.
tradução de Lucienne Scalso



