"Viver, intensamente, é você chorar, rir,
sofrer, participar das coisas, achar a verdade nas coisas que faz.
Encontrar em cada gesto da vida o
sentido exato para que acredite nele e o sinta intensamente."
Leila Diniz
Como é bom ver o mar. Sentir a brisa. Pisar descalça na areia. Ir ao encontro da água. Ver a fúria noturna do Atlântico na Avenida Atlântica. Sentir o meu corpo livre ser tatuado com desenhos invisíveis pelas ondas. Passarei uma parte da Semana Internacional da Mulher no Rio, cidade que me encanta pela sua geografia urbana, pela música, pela beleza despojada dos seres humanos e, inclusive, por mostrar de forma escancarada as desigualdades sociais. Lá, nada é sutil. Diferente daqui, onde os parques e avenidas largas escondem as misérias humanas que disputam os restos podres nos lixões, a dor do abandono e das desigualdades nos becos e vilas - adoro os parques e avenidas, mas quero essa beleza em todos os cantos da cidade.
E por falar em desigualdades, Semana Internacional da Mulher, corpo e Rio de Janeiro, um dia desses uma menina carioca foi presa por buscar ajuda num hospital público para as sequelas de um aborto provocado. Negra, pobre e desesperada, a menina negra foi denunciada por uma profissional do hospital e foi condenada por uma juíza a pagar uma fiança de 2 mil reais. Até nos casos de aborto, a condenação tem componente de classe e étnico, uma vez que a menina negra só foi presa porque buscou atendimento num hospital público. Já as meninas ricas, que fazem abortos nas clínicas particulares e recebem um tratamento digno, jamais correriam esse risco e nem de morte.
Não se arrepiem minhas amigas feministas, mas digo que não sou a favor dos discursos que defendem o aborto como método contraceptivo. A questão é bem mais complexa. Mas também repudio os discursos moralistas religiosos que se fecham na condenação e são cúmplices das milhares de mortes por ano de mulheres, na sua maioria negras e miseráveis, vítimas de abortos clandestinos. Devemos romper com essa hipocrisia e assumir que o aborto mata as nossas mulheres e que o Estado deve intervir para assegurar o direito à vida e à saúde. No Brasil, o aborto inseguro é a quarta maior causa de morte materna. Estima-se que a cada ano ocorram de 750 mil a 1 milhão de abortos clandestinos. A única forma de reduzir essa prática insegura é legalizando-o. Isto é, o aborto deve deixar de ser crime e o sistema de saúde pública deve assegurá-lo às mulheres com gravidez indesejada, além, é óbvio, de tratamento digno.
Neste aspecto, há no Ministério da Saúde uma grande sensibilidade de tratar o aborto como tema de saúde pública, em sintonia com as plataformas do Cairo e de Pequim. Defendo que o aborto seja utilizado como o último recurso e que a sua legalização venha acompanhada de medidas preventivas como a educação sexual e o acesso a meios de contracepção. Atualmente, O Código Penal ainda vigente, de 1940, considera o aborto crime, exceto quando se trata de perigo de vida para a gestante ou quando a gravidez é resultante de estupro.
Nós, mulheres, sabemos muito bem que a nossa sexualidade e os direitos reprodutivos ainda estão submetidos a uma cultura sexista. A nós é imputada a culpa por uma gravidez indesejada, como se o ato sexual fosse uma atitude solitária. Relações sexuais forçadas são rotinas no país, inclusive dentro de instituições religiosas.
A revolução feminina, que marcou o século XX ao lado da revolução tecnológica, deve prosseguir intensa neste século XXI com muitas lutas, movimentos, direitos, conquistas, transformações e poesia: "você me vem de novo...chega, não pede licença, transforma palavras em imagens fálicas e, ainda, se sente dono da casa, portador de todos os direitos, inclusive de tocar o meu corpo...Ah, homem! Não vá pensando que é assim...Esta casa tem dono, ou melhor, tem dona: mulher atrevida, metida, destemida, que para você se meter a entrar e meter vai ter que aprender a curar as minhas feridas, a me olhar por dentro, a me ungir com amor, a trazer a lua cheia, a plantar violetas no meu jardim e molhá-lo com salivas doces... " (NS)
Encontro no Dia 8 de Março
No dia Internacional das Mulheres, estaremos fazendo um grande encontro virtual no blog da minha amiga Lys, astrônoma, que mora na Inglaterra. Vocês estão convidados/as a participar e postar informações, questões, certezas, dúvidas, conquistas, desafios que nos levam a continuar na luta pela igualdade na diversidade. http://universodesconexo.wordpress.com/coletiva-pelas-mulheres/