segunda-feira, 22 de novembro de 2010

No meio da caminho



No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

Sopro divino - O amor cura

Quando o câncer volta é punk. Pauleira mesmo. Muitos apertos no coração. Lágrimas que escorrem. É uma recaída. Algumas pedras no caminho. Mas aquela força que nos moveu no passado recente volta ainda mais intensa. E é essa força, que chamo de sopro divino, que nos empurra pra frente. Uma força extraordinária que faz o meu amor resistir bravamente, mesmo com todos os efeitos da quimioterapia que são devastadores. E lá vou eu de novo pra cozinha, aprender a lidar com os liquidificadores e fazer sucos verdes e sucos do sol, fontes de vida. Agora, com a ajuda solidária e fundamental da amiga Márcia Chiad, estou produzindo na minha horta alguns produtos que uso nos sucos e na nossa alimentação. Tudo orgânico, sem agrotóxico, sem o veneno que aumenta a sede insaciável de lucro do agronegócio e destrói vida humana, destrói a Gaia, os rios, matas e peixes.


Junto com os sucos, alimentação sem farinha branca e sem açúcar, uma vez que o câncer se alimenta de glicose, um prato colorido e vivo de salada crua e brotos, arroz integral, shitake, tofu e outras delícias que vamos aprendendo a fazer e a gostar. O sopro divino está nos alimentos e nas mãos que os tocam com o amor. Todas as vezes em que cozinho, concentro minha energia imaginando que ali está a presença de Deus, a LUZ, a força do Sol, que produz a energia necessária para fortalecer o sistema imunológico do Rica e destruir todas as células doentes...esse amor cura...

domingo, 20 de junho de 2010

domingo, 13 de junho de 2010

Poesia na vida

Renoir - Dance


* Elisa Lucinda - com todo o meu amor para Ricardo

Eu te amo como quem esquece tudo
diante de um beijo:
as inúmeras horas desbeijadas
os terríveis desabraços
os dolorosos desencaixes
que meu corpo sofreu longe do seu.
Elejo sempre o encontro
Ele é o ponto do crochê.
Penélope invertida
nada começo de novo
nada desmancho
nada volto

Teço um novo tecido de amor eterno
a cada olhar seu de afeto
não ligo para nada que doeu.
Só para o que deixou de doer tenho olhos.
Cega do infortúnio
pesco os peixes dos nossos encaixes
pesco as gozadas
as confissões de amor
as palavras fundas de prazer
as esculturas astecas que nos fixam
na história dos dias

sábado, 8 de maio de 2010

Mãe




Amo como ama o amor.
Não conheço nenhuma
outra razão para amar
senão amar.
Que queres que te diga,
além de que te amo,
se o que quero dizer-te é que te amo?

Fernando Pessoa

domingo, 2 de maio de 2010

Fórmula anti-câncer

Aos 31 anos de idade, o Dr. David Servan-Schreiber lutou contra um câncer e teve ainda que enfrentar uma reincidência. Porém, hoje em dia “se delicia com o sabor da vida, feito um jovem” e apresenta a fórmula que, com a sua própria experiência, considera ser apropriada para vencer o câncer.
- Por que cresceram tanto os números de câncer depois do fim da 2a guerra?
- Antes do câncer se tornar a epidemia que hoje conhecemos, como vivíamos e comíamos?
- Diz que uma alimentação saudável é o primeiro passo para equipar o nosso organismo contra esse mal.
- Apresenta uma lista de alimentos bons para cada tipo de câncer, tendo alguns mais cotados como: o alho, a cebola, o alho-poró, a couve-de-bruxelas, couve-flor e o brócolis (excelente fonte de cálcio).
- Usar o açafrão-da-india, pois, este é um poderoso anti-inflamatório natural que deve ser misturado com a pimenta para fazer efeito. Uma simples receita de um molho com o açafrão, azeite de oliva e pimenta preta que pode ser usado no tempero das saladas é uma poderosa dica do mestre vencedor.
- Enfatiza que fortalecer o seu corpo vai seguramente estimular o a sua capacidade (imunidade) para resistir ao câncer.
fonte: www.motivaco.org

terça-feira, 27 de abril de 2010

As Sem-razões do Amor




Para Ricardo,
meu amor, meu amante, meu companheiro, minha fonte de poesia, com todas as nuances da paixão, seus tons quentes e frios, seus sabores doces e ácidos, seu calor e seu frio, sua mansidão e imensidão...hoje, faz 20 anos que dividimos a mesma casa, o mesmo quarto, a mesma cama e desejos tão diversos e plurais... a nossa história não pode ser contada no singular.

Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor

sábado, 24 de abril de 2010

Canção Tonta


Frederico Garcia Lorca

Mama.
Eu quero ser de prata.
Filho,
Terás muito frio.
Mama,
eu quero ser de água.
Filho,
Terás muito frio.
Mama.
Borda-me em teu travesseiro.
Isso sim!
Agora mesmo!

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O câncer não é o fim. Pode ser um novo começo.


“Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e, principalmente, viver.”
Este ensinamento do Dalai Lama é precioso e tem me ajudado a mudar a forma ocidental de ver o mundo.
Quando recebemos no dia 20 de março do ano passado o diagnóstico do câncer, o chão tremeu, a luz sumiu e um medo gigante passou a me devorar. Ali, no Hospital, parecia que não havia mais vida no horizonte. A boca seca, as lágrimas amargas, o coração batendo igual tambor...parecia que era o fim.
Grande engano. Ao mesmo tempo em que o sol sumia, uma pequena chama ia surgindo naquele labirinto escuro. Me agarrei àquele feixe de luz como uma criança se agarra à mãe com medo de perdê-la. E daquele dia em diante passei a acreditar que “o amor cura” e cura mesmo. E vou repetindo isso como um mantra tibetano.
Ao invés de fugir dessa doença que levou meu pai, avós, tios, amigos e, a partir daquele dia, poderia levar o meu amor, decidi enfrentá-la. Fui aprendendo que para combatê-la é preciso conhecê-la, desmistificá-la. Aí, ao invés do fim, tivemos a chance de viver um novo começo. E um novo começo deve ser feito com novos valores, novas lições, como esta também do Dalai Lama: "Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem do presente de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido".

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Ressurgindo, como flor de lótus



Tenho me recolhido há mais de um ano, como uma lagarta que vai tecendo o seu próprio casulo para um dia experimentar a liberdade do voo. Passei tempos difíceis, com o coração apertado, espremido, contorcido, aprendendo as lições que poderiam me levar para a Luz. Na sabedoria budista, aprendemos que a flor de lótus cresce da escuridão do lodo, emergindo da profundidade sombria em direção à luz. Ela é a síntese da escuridão e da luz, do material e do imaterial, por isso não é maniqueísta, não é dual, não é a mera negação, traz em si a força da superação. Apesar de suas raízes habitarem a profundidade escura das águas do pântano, ela tem a capacidade de alcançar a iluminação e de trazer as cores da transformação. Por isso, é dialética.

Foi assim, buscando superar a ignorância, a escuridão e o medo, que fui aprendendo um novo caminho e conseguindo a força necessária para enfrentar a mais dura das batalhas: um câncer altamente agressivo que acometeu o meu amor, o meu companheiro, o meu parceiro. Estamos aprendendo que a semente da iluminação está sempre presente no mundo, apesar da dor.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Pense no Haiti - Reze pelo Haiti

Menina haitiana
(Foto - Washington Post)
Criança
Cabecinha boa de menino triste,
de menino triste que sofre sozinho,
que sozinho sofre, — e resiste,
Cabecinha boa de menino ausente,
que de sofrer tanto se fez pensativo,
e não sabe mais o que sente...
Cabecinha boa de menino mudo que não teve nada,
que não pediu nada,
pelo medo de perder tudo.
Cabecinha boa de menino santo
que do alto se inclina sobre a água do mundo
para mirar seu desencanto.
Para ver passar numa onda lenta e fria
a estrela perdida da felicidade
que soube que não possuiria.
Cecília Meireles, in 'Viagem'

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Te quiero (para Ricardo)




*Mario Benedetti


Tus manos son mi caricia,
mis acordes cotidianos;
te quiero porque tus manos
trabajan por la justicia.


Si te quiero es porque sos
mi amor, mi cómplice, y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.


Tus ojos son mi conjuro
contra la mala jornada;
te quiero por tu mirada
que mira y siembra futuro.


Tu boca que es tuya y mía,
Tu boca no se equivoca;
te quiero por que tu boca
sabe gritar rebeldía.


Si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.


Y por tu rostro sincero.
Y tu paso vagabundo.
Y tu llanto por el mundo.
Porque sos pueblo te quiero.


Y porque amor no es aurora,
ni cándida moraleja,
y porque somos pareja
que sabe que no está sola.


Te quiero en mi paraíso;
es decir, que en mi país
la gente vive feliz
aunque no tenga permiso.


Si te quiero es por que sos
mi amor, mi cómplice y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.

*poeta, escritor e ensaísta uruguaio

domingo, 1 de março de 2009

Tempestade de almas

Foto: site Olhares

Por Clarice Lispector


Ah, se eu sei, não nascia, ah, se eu sei, não nascia. A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente. O anel que tu me deste era de vidro e se quebrou e o amor não acabou, mas em lugar de, o ódio dos que amam. A cadeira me é um objeto. Inútil enquanto a olho. Diga-me por favor que horas são para eu saber que estou vivendo nesta hora. A criatividade é desencadeada por um germe e eu não tenho hoje esse germe mas tenho incipiente a loucura que em si mesma é criação válida. Nada mais tenho a ver com a validez das coisas. Estou liberta ou perdida. Vou-lhes contar um segredo: a vida é mortal. Nós mantemos esse segredo em mutismo cada um diante de si mesmo porque convém, senão seria tornar cada instante mortal. O objeto cadeira sempre me interessou. Olho esta que é antiga, comprada num antiquário, e estilo império; não se poderia imaginar maior simplicidade de linhas, contrastando com o assento de feltro vermelho. Amo os objetos à medida que eles não me amam. Mas se não compreendo o que escrevo a culpa não é minha. Tenho que falar pois falar salva. Mas não tenho uma só palavra a dizer. As palavras já ditas me amordaçaram a boca. O que é que uma pessoa diz à outra? Fora "como vai?" Se desse a loucura da franqueza, que diriam as pessoas às outras? E o pior é o que se diria uma pessoa a si mesma, mas seria a salvação, embora a franqueza seja determinada no nível consciente e o terror da franqueza vem da parte que tem no vastíssimo inconsciente que me liga ao mundo e à criador inconsciência do mundo. Hoje é dia de muita estrela no céu, pelo menos assim promete esta tarde triste que uma palavra humana salvaria. Abro bem os olhos, e não adianta: apenas vejo. Mas o segredo, este não vejo nem sinto. A eletrola está quebrada e não viver com música é trair a condição humana que é cercada de música. Aliás, música é uma abstração do pensamento, falo de Bach, de Vivaldi, de Haendel. Só posso escrever se estiver livre, e livre de censura, senão sucumbo. Olho a cadeira estilo império e dessa vez foi como se ela também me tivesse olhado e visto. O futuro é meu enquanto eu viver. No futuro vai ter mais tempo de viver, e, de cambulhada escrever. No futuro, se diz: se eu sei, eu não nascia. Marli de Oliveira, eu não escrevo cartas pra você porque só sei ser íntima. Aliás eu só sei em todas as circunstâncias ser íntima: por isso sou mais uma calada. Tudo o que nunca se fez, far-se-á um dia? O futuro da tecnologia ameaça destruir tudo o que é humano no homem, mas a tecnologia não atinge a loucura; e nela então o humano do homem se refugia. Vejo as flores na jarra: são flores do campo, nascidas sem se plantar, são lindas e amarelas. Mas minha cozinheira disse: mas que flores feias. Só porque é difícil compreender e amar o que é espontâneo e franciscano. Entender o difícil não é vantagem, mas amar o que é fácil de se amar é uma grande subida na escala humana. Quantas mentiras sou obrigada a dar. Mas comigo mesma é que eu queria não ser obrigada a mentir. Senão, o que me resta? A verdade é o resíduo final de todas as coisas, e no meu inconsciente está a verdade que é a mesma do mundo. A Lua é, como diria Paul Éluard, éclatante de silence. Hoje não sei se vamos ter Lua visível pois já se torna tarde e não a vejo no céu. Uma vez eu olhei de noite para o céu circunscrevendo-o com a cabeça deitada para trás, e fiquei tonta de tantas estrelas que se vêem no campo, pois, o céu do campo é limpo. Não há lógica, se se for pensar um pouco, na ilogicidade perfeitamente equilibrada da natureza. Da natureza humana também. O que seria do mundo, do cosmos, se o homem não existisse. Se eu pudesse escrever sempre assim como estou escrevendo agora eu estaria em plena tempestade de cérebro que significa brainstorm. Quem terá inventado a cadeira? Alguém com amor por si mesmo. Inventou então um maior conforto para o seu corpo. Depois os séculos se seguiram e nunca mais ninguém prestou realmente atenção a uma cadeira, pois usá-la é apenas automático. É preciso ter coragem para fazer um brainstorm: nunca se sabe o que pode vir a nos assustar. O monstro sagrado morreu: em seu lugar nasceu uma menina que era sozinha. Bem sei que terei de parar, não por causa de falta de palavras, mas porque essas coisas, e sobretudo as que eu só pensei e não escrevi, não se usam publicar em jornais.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Evocação Feminina

(foto: Anais Nin)

* Virgínia Schall

Minha voz
rasga véus
cortinas
de dentro
de sempre
desfaz penumbras
e acorda
Bárbaras, Cecílias, Stellas
Henriquetas, Heliodoras

E suas vozes
em minhas palavras
alteiam
celebram encontros
de amores tantos
salpicam sândalos
no ar.

Sagas passadas
chagas em sangue
vertem
e vibram
amantes perenes
somos todas
onipresentes

Minhas mãos
tão femininas
mãos de mulher
madura, menina
sonham
acariciam ternas
lúcidas lembranças
pedaços de dias
franjas de ausências
melancolias

Em suas palmas
conchas
de lágrimas oceânicas
verdejam prantos
horas molhadas
de sofrimento,
surdas, caladas.

O silêncio da solidão
é memória
reverbera
fantasias, ilusões,
onde desaguar
como abraçar
tamanha paixão?

Mãos entrelaçadas
tecem séculos
em teia
de fios farpados
prisão de anjos
eternizados
Somos etéreas
flores fugazes
pirilampos da vida
pela vida
alinhavadas

Assim evoco
Bárbara, Cecília, Stella
Henriqueta, Heliodora
cantemos juntas
à nossa felicidade
brindemos uníssonas
à nossa liberdade!

(Poema dedicado às poetas Bárbara Heliodora, Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa (in memoria) e especialmente à poeta e amiga Stella Leonardos, através das quais evoco todas as mulheres poetas de todos os tempos, cujas vozes estiveram caladas por tantos séculos.)

domingo, 4 de janeiro de 2009

O Terrorismo de Israel continua. O silêncio de Obama também

Criança palestina chora na Faixa de Gaza

Diferente do poema abaixo de Mário Quintanta, o ano novo começou com graves pecados: os recentes ataques cruéis de Israel contra o povo palestino na faixa de Gaza já mataram ao menos 480 pessoas e feriram outras 2.350, a maioria civis, crianças, mulheres. Não é segredo pra ninguém que Israel sempre contou com o apoio do Império, agora decadente, dos EUA. Enquanto a tragédia prossegue e protestos contra Israel acontecem no mundo todo, o novo presidente eleito, Barack Obama, prossegue calado, omisso... A sua omissão é, no mínimo, cúmplice de mais esse genocídio, cujas armas assassinas sempre tiveram o patrocínio do país mais terrorista do planeta terra: os Estados Unidos, afirmação de Noam Chomsky, conceituado professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). É bom esclarecer que Chomsky não é palestino nem iraquiano ou afegão: é estadunidense mesmo.
Acabo me lembrando novamente de Mario Quintana. Desta vez o poema é Esperança:
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Ano Novo

"O Ano Novo ainda não tem pecado:
É tão criança...Vamos embalá-lo...
Vamos todos cantar juntos em seu berço de mãos dadas,
A canção da eterna esperança."

Mário Quintana

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Convite à viagem

site: Olhares

Charles Baudelaire

Minha doce irmã,
Pensa na manhã
Em que iremos, numa viagem,
Amar a valer,
Amar e morrer
No país que é a tua imagem!
Os sóis orvalhados
Desses céus nublados
Para mim guardam o encanto
Misterioso e cruel
Desse olhar infiel
Brilhando através do pranto.
Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.
Os móveis polidos,
Pelos tempos idos,
Decorariam o ambiente;
As mais raras flores
Misturando odores
A um âmbar fluido e envolvente,
Tetos inauditos,
Cristais infinitos,
Toda uma pompa oriental,
Tudo aí à alma
Falaria em calma
Seu doce idioma natal.
Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.
Vê sobre os canais
Dormir junto aos cais
Barcos de humor vagabundo;
É para atender
Teu menor prazer
Que eles vêm do fim do mundo.
— Os sangüíneos poentes
Banham as vertentes,
Os canis, toda a cidade,
E em seu ouro os tece;
O mundo adormece
Na tépida luz que o invade.
Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

domingo, 30 de novembro de 2008

Fernando Pessoa

Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém.

Fernando Pessoa

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O Tempo

Por Maristela Brunetto


Sempre tive problemas com o tempo
Nunca o vi como um amigo
Não sei se eu não o entendia
Ou se simplesmente nunca parei para observá-lo.
Não posso dizer que ele é um inimigo
Até porque acho que é generoso comigo
Acho mesmo que nunca olhei para ele
Simplesmente o ignorei,
Como se não existisse
Mas a vida nunca deixa uma negligência impune
Ela me apresentou o tempo
Ela o trouxe até mimE
le chegou e disse: Não dá mais para adiar
Vamos ter uma conversa
E, então, ele se revelou para mim
Só aí eu entendi que o tempo nunca pode ser adversário
Deve ser, sim, aliado
Hoje convivemos em harmonia
Às vezes ele se manifesta sozinho
E é quando acho que as coisas são mais sábias
Mas ainda tenho o desagradável hábito
De querer manipulá-lo
Como se eu tivesse este poder
Acho que logo não teremos mais conflitos
Teremos sintonia
Eu e o tempo

* Maristela Brunetto é jornalista sul-mato-grossense e linda

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Afresco


Seus beijos indóceis,
de efeitos furta-cores,
tatuaram o meu corpo
com traços invisíveis
marcaram a minha pele
com mordidas indolores.

As nuances desse amor
Cortaram a minha carne
geraram espasmos fundos
abriram minha genitália em flor
epiderme em risos, volúpia que arde,
gozo em cor, assombros profundos

O sumo da sua esfinge
Compôs no meu dorso quente
um afresco vivo com textura espessa,
afeto e maledicência, zunidos e vertigem
Nem furtiva nem perene
A sua arte me fez serpente.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

OBAMA, NOVIDADE SIMBÓLICA

* Por Chico Alencar

É inegável: a eleição de Barack Hussein Obama como 44o presidente da República dos Estados Unidos da América do Norte representa uma novidade simbólica para o mundo. Ainda em nossa geração o racismo e a segregação marcavam aquele país, e vitimaram líderes negros grandiosos como Malcolm X e Martin Luther King.A polarização tradicional da política dos EUA, entretanto, esconde uma realidade mais diversa: além de Obama e McCain, também disputaram a presidência da ainda mais forte potência capitalista do planeta candidatos independentes (como o conhecido Ralph Nader) e candidatos do Partido Socialismo e Libertação, do Partido da Constituição, do Partido Libertário, do Partido Verde, do Partido das Proibições, do Partido dos Trabalhadores Socialistas, do Partido Socialista, do Partido Americano e do Boston Tea.Mais imediatamente, a era Bush chega ao fim, o que sempre deve ser saudado. Essa deve ser a alteração mais percebida, inclusive com o fim do conceito e da prática espúrios de "guerra preventiva" e de unilateralidade.Não alimentemos ilusões, porém. Obama é uma alternativa para o capitalismo norte-americano em crise hegemônica. Seu programa de modernização da infra-estrutura energética, de comunicação, da pesquisa científica e da educação, com ampliação das políticas sociais, encontra apoio em representantes do poder econômico americano, como Warnen Buffet. O candidato do Partido Democrata contou também com a adesão de republicanos como Colin Powell.Obama renovou já na campanha, sem dúvida. Aglutinou apoio dos progressistas pela imagem de um jovem negro, idealista e determinado, e tranqüilizava os moderados com seu discurso sereno e disciplinado. Desse modo, envolveu amplos setores formadores de opinião pública: estudantes, jovens intelectuais liberais e ativistas de diversas minorias, até então apáticas pela desilusão política. Conseguiu, pouco a pouco, um raro engajamento popular, por meio de mecanismos como a internet. E recebeu os aportes do grande capital, viabilizadores do acesso à propaganda e à mídia de massas.O setor mais conservador da sociedade norte-americana, que McCain representou, como porta-voz da moralidade individualista, desta vez não ganhou. Os desastres do governo Bush no Iraque e no Afeganistão e o agravamento da crise econômica desde o estouro da "bolha imobiliária" favoreceram Obama. A vice do Republicano, Sarah Palin, no seu arrebatamento ultraconservador, disparava contra Obama, ecoando a linha da campanha, classificando-o como "celebridade", "elitista", "terrorista" e "comunista". Isso por ter ele defendido aumentar em 4,5% a alíquota das rendas acima de U$ 250 mil, auferidas por apenas 2% da população, voltando aos níveis do governo ("socialista", sra. Sarah?) de Bill Clinton. A postura fundamentalista e reacionária acabou por angariar antipatia da maioria da população contra sua própria chapa.Para além do simbolismo da eleição de um descendente afro-americano para a Presidência dos EUA é imperioso refletir sobre os destinos da sociedade, do planeta e da humanidade: é grave a situação da Terra produzida pelo irrefreável aquecimento global. Como lembra Leonardo Boff,: "não basta dizer que o aquecimento é produzido pelo ser humano. Que ser humano? Pelos índios, pelos esquimós? Precisamos dizer com todas as letras: o aquecimento foi produzido por aquela porção de homens que introduziram a produção industrial já há três séculos, aceleraram o consumo energético, inventaram a tecno-ciência que agride ecossistemas (ecologia ambiental), indutora de uma perversa desigualdade social (ecologia social) e devastadora do planeta como um todo (ecologia integral) e projetaram a cultura do consumo ilimitado (ecologia mental). Hoje são corporações industriais globalizadas, gigantes da bioquímica, do agro-negócio e instituições afins. São eles que mais poluem (só os USA, 25%) e que mais resistem às mudanças paradigmáticas. Se eles não se alfabetizarem ecologicamente e não mudarem o rumo do mundo poderão levar a biosfera para um impasse desastroso""Change" foi a senha vitoriosa de Obama. Mudança para valer, em nível global, significa reconhecer que como está não dá mais para continuar. Estamos condenados a inventar um outro modo de conviver, produzir e distribuir os bens necessários, de consumir responsável e solidariamente e tratar, reaproveitando, os dejetos, os resíduos. Precisamos, como enfatiza a Carta da Terra, de "um modo sustentável de viver". O atual já revelou-se não mais sustentável para 2/3 da humanidade. Todas as alternativas energéticas e supostamente ecológicas não vão ao cerne da questão. Em três ou quatro anos vão mostrar sua ineficácia. Dir-se-á: "vocês foram alertados e sabiam, mas preferiram a cegueira voluntária e a nossa perdição para garantir a rota insensata que lhes dava vantagens". É preciso transformar o sistema produtivo e as relações de produção e convivência. Eco-socialismo ou barbárie!Mudar e revolucionar é urgente. Nós, conscientes e organizados, podemos.

*Chico Alencar é educador, escritor e deputado federal do PSol